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Desmistificar o modelo de concessão dos serviços hidroviários

QUINTA NA REPORTAGEM | ESTRADAS FLUVIAIS

O secretário nacional de Hidrovias e Navegação, Otto Luiz Burlier, durante explanação no café da manhã da Frenlogi, defendeu a regulamentação da OIT 169 como passo essencial para destravar investimentos em hidrovias. (Foto: Humberto Azevedo / RDM)

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Frenlogi debate concessões hidroviárias e desafio da OIT 169

 

Parlamentares, dirigentes da ANTAQ e DNIT, além de representantes do Ministério dos Portos e Aeroportos e do setor privado se reúnem para discutir modelo de gestão que pode transformar a logística nacional.

 

Por Humberto Azevedo

 

Em um café da manhã promovido pela Frente Parlamentar de Logística e Infraestrutura (Frenlogi), representantes do Ministério dos Portos e Aeroportos (MPA), da iniciativa privada, dirigentes da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ) e do Departamento Nacional de Infraestrutura Terrestre (DNIT), com parlamentares, debateram os desafios e as oportunidades para expandir o uso das hidrovias no Brasil.

 

O encontro realizado na manhã desta última quarta-feira, 25 de março, teve como pano de fundo a necessidade de desmistificar o modelo de concessão dos serviços hidroviários e enfrentar os entraves legais que emperram projetos estratégicos, como a indefinição sobre a aplicação da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

 

“A gente precisa virar a página. É uma discussão de Estado, não é uma discussão de governo. O que cada um aqui pode fazer, com inteligência e diálogo, é aproveitar a oportunidade para dar mais ênfase e força a essa agenda”, afirmou Otto Luiz Burlier da Silveira Filho, secretário nacional de hidrovias e navegação do MPA.

 

CONCESSÃO VERSUS PRIVATIZAÇÃO

 

O superintendente de Estudos e Projetos Hidroviários da ANTAQ, Eduardo Pessoa de Queiroz, apresenta os detalhes do modelo de uma concessão hidroviária durante o café da manhã da Frenlogi, que reuniu parlamentares, gestores e representantes do setor privado. (Foto: Humberto Azevedo / RDM)

O principal ponto de debate foi a diferença fundamental entre a concessão dos serviços hidroviários e a venda dos rios, uma confusão que, segundo os participantes, alimenta narrativas equivocadas.

 

“A concessão não é privatização. É a delegação temporária da prestação de um serviço público. Os rios permanecem como bens inalienáveis da União. Ao fim do contrato, todos os bens e investimentos realizados retornam ao controle do Poder Público”, explicou Frederico Carvalho Dias, diretor-geral da ANTAQ.

 

Carvalho Dias destacou que o modelo é desenhado para garantir o uso múltiplo das águas. “Serão isentos os ribeirinhos, o uso para turismo, pesca, transporte de passageiros e cargas de pequena lavoura. A cobrança de pedágio, se houver, será apenas para os grandes usuários, como os comboios de carga”, assinalou o representante do governo brasileiro.

 

DESAFIOS DO MODELO ATUAL

 

Contratos segregados, orçamento limitado e dragagem só emergencial: os gargalos da gestão atual. (Foto: Humberto Azevedo / RDM)

Foi consenso entre os participantes do café da manhã da Frenlogi o apontamento para as fragilidades da gestão pública atual hidroviária, marcada por orçamentos limitados e contratos emergenciais, como um dos principais gargalos para o desenvolvimento do setor.

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O diretor do DNIT, Edme Tavares de Albuquerque Filho, também trouxe dados que comparam a eficiência dos modais.

 

“Hoje, a gente tem vultosos investimentos públicos com contratos segregados e não sincrônicos. Falta previsibilidade. Muitas vezes, o serviço fica restrito à dragagem emergencial, o que não resolve o problema estrutural”, analisou Tavares.

 

“A duplicação de 113 quilômetros da BR-364 está custando cerca de R$ 2,2 bilhões. Enquanto isso, o estudo de concessão do Rio Madeira, para 1.100 quilômetros, indica R$ 100 milhões em investimentos. É uma diferença brutal de eficiência”, comparou o dirigente do DNIT.

 

OIT 169

 

De acordo com a apresentação feita pela ANTAQ, hidrovia combina rios naturais com melhorias artificiais para garantir navegação segura e regular. (Foto: Humberto Azevedo / RDM)

Um dos maiores obstáculos apontados para a realização dos projetos foi a falta de regulamentação da Convenção 169 da OIT, que trata da consulta a povos indígenas e tribais.

 

“O grande problema hoje é que não está regulamentado como fazer essa consulta. A gente não tem clareza sobre quais atores devem ser consultados, qual a distância do empreendimento que justifica a consulta, como ela deve ser feita. Isso gera uma imprevisibilidade enorme e encarece os projetos”, detalhou Otto Burlier, citando o exemplo do Rio Tapajós.

 

“Para o Tapajós, a gente está estimando R$ 30 milhões só para fazer a consulta, por baixo. E aí, depois da consulta, vêm as demandas. É um absurdo. Isso não é um problema só das hidrovias, está assolando todos os grandes empreendimentos de infraestrutura no Brasil”, complementou Otto, dirigente do MPA.

 

AÇÃO PARLAMENTAR

 

Gestão ativa do recurso hídrico oferece previsibilidade, segurança e ganho de escala com menor impacto ambiental. (Foto: Humberto Azevedo / RDM)

Diante dos entraves, a deputada e coordenadora de portos e hidrovias da Frenlogi, Daniela Reinerh (PL-SC), propôs uma ação concreta para acelerar os debates e as soluções.

 

“Nós precisamos unir os nossos esforços. Proponho fazer uma audiência pública na Comissão de Integração Nacional e Desenvolvimento Regional para trazer os interessados, fazer visitas técnicas e dar encaminhamento objetivo a esse processo. Não podemos perder mais tempo com burocracia quando temos um transporte mais econômico e com menos impacto ambiental”, declarou a parlamentar que entre 2019 e 2022 foi vice-governadora de Santa Catarina.

 

A proposta foi bem recebida pelo secretário nacional de hidrovias e navegação, Otto Luiz Burlier, que sugeriu também um esforço mais amplo.

 

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“Acho excelente essa oportunidade. Mas temos que trazer também o Judiciário e o Ministério Público para essa discussão. Minha intenção é pedir uma audiência com a PGR para reunir as câmaras de transportes, meio ambiente e populações indígenas e construir isso juntos”, comentou.

 

CASOS CONCRETOS

 

Encalhes de cargueiros, proibição de navegação noturna e risco de desabastecimento: os custos da falta de manutenção. (Foto: Humberto Azevedo / RDM)

Os representantes do setor privado trouxeram exemplos práticos da urgência do tema e da necessidade de uma comunicação mais efetiva com os parlamentares.

 

Sérgio Aquino, da Federação Nacional das Empresas de Operações Portuárias (FENOP), foi enfático ao sugerir o foco no ponto central. “A OIT 169 ou se regulamenta, ou se faz um movimento para o Brasil sair dela. Minha sugestão é que não desenvolvamos nenhuma ação de consulta antes de regulamentar. Vamos regrar antes de agir, usando as leis brasileiras que já existem, como a da audiência pública”, sugeriu.

 

“Nós precisamos trabalhar melhor a nossa comunicação, não só para fora, mas aqui dentro da Casa. Temos que levar o conhecimento técnico da ANTAQ e a vontade política do Ministério para os deputados, senadores e, principalmente, para os chefes de gabinete. São eles que falam no ouvido dos parlamentares”, acrescentou Edeon Vaz, diretor-executivo da Agência de Desenvolvimento Sustentável do Corredor Centro-Oeste (ADECOM).

 

PRÓXIMOS PASSOS

 

Pedágio só para grandes comboios. Ribeirinhos, passageiros, turismo e pesca são isentos. (Foto: Humberto Azevedo / RDM)

Ao final do encontro, ficou acordado que o Instituto Brasil Logística (IBL) e a Frenlogi irão trabalhar em conjunto para estruturar as propostas e apoiar na realização da audiência pública que será articulada pela deputada Daniela Reinehr para debater a aceleração das outorgas e concessões hidroviárias.

 

Em parceria com o MPA e o escritório da OIT no Brasil, com apoio da ANTAQ, Frenlogi e IBL, será realizado um seminário provavelmente em maio com especialistas internacionais para apresentar experiências de países que já regulamentaram a consulta prévia.

 

A FENOP sugeriu ainda a criação de um evento específico para que seja debatido a OIT 169 para aprofundar a discussão com os parlamentares.

 

“Essa é uma agenda econômica, porque é mais barato navegar; é uma agenda ambiental, porque é o modal que menos emite carbono; e é uma agenda social, porque leva abastecimento e segurança para a população que vive às margens dos rios”, resumiu o secretário nacional de hidrovias e navegação, Otto luiz Burlier, ao encerrar sua participação.

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