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Doenças da mente têm se alastrado no país

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As doenças mentais têm afetado jovens e adultos, mas no Brasil não há
políticas públicas eficazes para atender a população de modo geral

Jean Gusmão

Nos últimos anos, as doenças mentais têm aumentado significativamente no Brasil, especialmente durante a Covid-19, com transtornos de ansiedade e depressão se manifestando em larga escala entre adolescentes, jovens e adultos. Um dos principais fatores causadores é a ansiedade, frequentemente desencadeada pela pressão social e frustrações emocionais.

No entanto, no Brasil, há uma carência de políticas públicas direcionadas para aqueles que enfrentam problemas de saúde mental. Os tratamentos mais eficazes são frequentemente encontrados nos consultórios privados. Atualmente, os hospitais públicos no Brasil, especialmente em Cuiabá, enfrentam escassez de profissionais da psiquiatria.

Diante disso, a psiquiatra Luciana Arcos, que está na profissão há mais de vinte anos, já trabalhou no Sistema Único de Saúde (SUS), mas hoje está atuando na iniciativa privada, enfatiza que essas doenças vêm sendo causadas pela própria sociedade. 

“Essas doenças mentais estão sendo agravadas pela própria sociedade porque existe uma cobrança muito grande. Você precisa ser perfeito no trabalho, tudo tem que ser excelente, então você não tem a resiliência para aceitar críticas. No final das contas, se algo der errado e você receber uma crítica, vai se sentir muito mal. Mas qual o problema em receber uma crítica? Se está errado ou se dá para melhorar, só que as pessoas não conseguem lidar com os sentimentos, e é aí onde começam a surgir as patologias”, pontua Luciana.

A doutora Luciana Arcos destaca a falta de políticas públicas na área da psiquiatria ( Foto: Tchélo Figueiredo)

Atualmente, a sociedade está imersa em cobranças por resultados, o que é um dos principais fatores para que jovens e adultos desenvolvam doenças mentais. Muitos enfrentam dificuldades em lidar com as pressões ao longo da vida, seja nos estudos, no trabalho, nos relacionamentos amorosos ou em outros aspectos. Para obter resultados, começam a sofrer especialmente com as frustrações da vida. Portanto, é urgente aprender a lidar com os sentimentos durante a transição da adolescência para a vida adulta, que ocorre entre 17 e 30 anos. Com isso, há uma crescente demanda por clínicas de psicologia.

Entretanto, a psiquiatra ressalta que, antigamente, os jovens não sofriam tanto com problemas de saúde mental, pois viviam em uma época diferente, na qual as prioridades e responsabilidades eram distintas.

“Antigamente, as pessoas não tinham tanta ansiedade nem depressão, pois as prioridades de vida eram diferentes. Hoje, um jovem de 18 ou 20 anos tem preocupações distintas. Antigamente, uma pessoa nessa faixa etária estava preocupada em ter uma casa, trabalhar e pagar suas contas. Hoje, muitos jovens ainda vivem com os pais e nunca trabalharam. Suas preocupações incluem o que farão no final de semana, e é assim que a vida tem sido.”

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Além disso, um dos fatores agravantes para o desenvolvimento de doenças mentais foi a pandemia de Covid-19, durante a qual as pessoas tiveram que ficar mais reclusas em suas casas devido ao isolamento necessário. Com isso, perderam a rotina de socializar com outras pessoas. Diante dessa situação, muitos desenvolveram depressão, medo, ansiedade e insegurança, tudo isso causado pela quarentena nesse período.

“O que acontece é que esses problemas já existiam antes, mas com a pandemia, as pessoas ficaram muito reclusas dentro de casa. Essa reclusão fez com que elas entrassem em contato com seus sentimentos. Quando você trabalha, estuda e passeia com seus amigos, não tem tempo para olhar para dentro de si. Quando você começa a fazer isso, começa a ver coisas que não gosta, que não queria ou que gostaria que fossem diferentes. Assim, você começa a desenvolver problemas”, explica Luciana.

A psiquiatra Luciana destaca ainda a importância de ter um propósito na vida. Participar de um curso, praticar atividades físicas ou planejar uma viagem são essenciais. Sem um objetivo, as chances de desenvolver depressão aumentam significativamente.

A depressão precisa ser tratada com seriedade, e o uso de medicamentos varia conforme o paciente e a gravidade dos sintomas. Casos leves podem ser tratados com terapia, enquanto os mais graves necessitam de medicação, especialmente para aqueles que sofrem de crises de ansiedade com reações físicas intensas.

“Cada pessoa é única, e cada caso também. Se eu atendo um paciente com sintomas leves, o necessário é fazer terapia. No entanto, se chega um paciente com sintomas mais graves, como crises de ansiedade, é preciso considerar o tratamento com medicação, pois essa pessoa apresenta reações físicas”, enfatiza.

Luciana ressalta também que o tratamento das doenças mentais não pode se basear apenas em medicamentos. Para ela, o essencial é realizar terapias, a fim de explorar as causas que levaram os pacientes a desenvolver os sintomas. Todas as doenças mentais têm uma razão subjacente. A mudança ocorre quando as pessoas buscam evolução pessoal, rompendo um ciclo repetitivo em suas vidas.

Com o aumento das doenças mentais no Brasil, o país enfrenta dificuldades em oferecer suporte por meio de políticas públicas voltadas para as pessoas que sofrem com essas condições. Além disso, há um desafio preocupante: as próprias pessoas frequentemente não buscam ajuda, o que contribui para o crescimento dos problemas de saúde mental no país.

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“O maior desafio para o futuro da saúde mental no Brasil é a necessidade de maior empatia e preocupação com o próximo, combatendo o individualismo na sociedade. A tecnologia também influencia a saúde mental, especialmente entre os adolescentes, e deve ser utilizada de forma equilibrada”, enfatiza Luciana.

Infelizmente, não existem políticas públicas eficazes no Brasil voltadas para o cuidado com a saúde mental. Há uma escassez de médicos e medicamentos no SUS, com hospitais públicos oferecendo apenas os remédios mais baratos e, muitas vezes, sofrendo com a falta desses medicamentos. Isso compromete o trabalho dos profissionais da psiquiatria devido à falta de investimentos.

“Não há psiquiatras suficientes para atender à demanda, nem sempre há medicação disponível para os pacientes. Às vezes, até existem medicamentos, mas são os mais baratos que estão em falta. Na realidade, o SUS carece de políticas públicas eficazes e enfrenta uma falta de investimento”, pontua.

Luciana ainda ressalta que a falha no SUS no tratamento de doenças mentais resulta da falta de atenção dos políticos brasileiros a essa questão, deixando muitos pacientes sem assistência adequada. Além disso, há poucos profissionais disponíveis para atender à demanda, e a maioria dos tratamentos é acessível apenas na rede particular. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) no setor público enfrentam alta demanda, o que dificulta um atendimento eficaz.

Apesar disso, atualmente a mídia desempenha um papel importante na quebra do tabu relacionado às doenças mentais. Ela tem contribuído para desmistificar os casos de depressão, combatendo o preconceito e incentivando as pessoas a buscar tratamento.

Portanto, a psiquiatra Luciana aconselha que as pessoas que estão enfrentando problemas de saúde mental busquem ajuda profissional desde o início da doença, pois isso pode evitar complicações maiores na vida delas.

“Para não desistir, é importante que a pessoa que está sofrendo entenda que o que ela tem é uma doença, e muitas delas têm cura. Mesmo que algumas não tenham, a maioria pode ser tratada, e existe ajuda disponível. É fundamental que ela não desista de procurar apoio, pois muitos sofrem sozinhos por não buscarem ajuda”, finaliza Luciana.

Atualmente, as residências médicas em psiquiatria estão em alta demanda no país, com muitos profissionais da saúde buscando se especializar nessa área.

 

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