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SOBRETUDO

Santa Catarina virou uma fábrica de prefeitos. Mas quem está formando os próximos líderes estaduais?

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Existe uma transformação silenciosa acontecendo na política catarinense que poucos perceberam. Durante décadas, Santa Catarina produziu lideranças estaduais a partir dos partidos. Os grandes nomes construíam suas trajetórias ocupando espaços internos, presidindo siglas, liderando bancadas e consolidando influência dentro das estruturas partidárias.

 

Hoje o caminho parece outro.

 

Se alguém observar os principais protagonistas da política catarinense atual, encontrará uma coincidência difícil de ignorar. O governador Jorginho Mello foi prefeito. João Rodrigues construiu sua força política como prefeito. Antídio Lunelli chegou ao debate estadual após administrar Jaraguá do Sul. Topázio Neto transformou a Prefeitura de Florianópolis em plataforma política. Adriano Silva ganhou projeção estadual a partir de Joinville. Gean Loureiro consolidou seu capital político na Capital. Mesmo lideranças que hoje disputam espaço para o futuro passaram antes pelas administrações municipais.

 

Não parece mais ser o partido que forma as grandes lideranças estaduais.

 

Parece ser a prefeitura.

 

Os partidos perderam a capacidade de produzir protagonistas

 

Durante muito tempo, um político precisava percorrer uma longa escada partidária para chegar ao topo. Vereador, deputado estadual, deputado federal, dirigente partidário. O partido era a escola e também o filtro.

 

Esse modelo perdeu força.

 

Os partidos continuam importantes para disputar eleições, mas perderam parte da sua capacidade de produzir lideranças de alcance estadual. Basta observar quem domina as discussões sobre o futuro de Santa Catarina. Raramente são presidentes de partidos ou parlamentares construídos exclusivamente dentro das estruturas partidárias. Na maioria dos casos, são gestores que tiveram a oportunidade de administrar cidades, entregar resultados e criar uma relação direta com a população.

 

A explicação é simples. Enquanto os partidos passaram anos discutindo alianças, disputas internas e sobrevivência eleitoral, as prefeituras se transformaram em vitrines políticas permanentes.

 

O eleitor passou a valorizar quem entrega

 

A política brasileira vive uma crise de confiança que atinge praticamente todas as instituições. Os partidos não escaparam dela.

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Ao mesmo tempo, o eleitor passou a observar com mais atenção quem consegue produzir resultados concretos. E é justamente nas cidades que esses resultados aparecem com mais facilidade. Uma obra é vista. Um problema de mobilidade é sentido. Uma melhoria na saúde chega mais rapidamente à percepção das pessoas.

 

Isso ajuda a explicar por que tantos prefeitos passaram a ocupar espaço no debate estadual.

 

Eles não chegam apenas com discurso.

 

Chegam com experiência de gestão.

 

Goste-se ou não dos resultados alcançados por cada um deles, existe um ativo político que os diferencia de muitos parlamentares: eles administraram alguma coisa.

 

O municipalismo está mudando a política catarinense

 

Santa Catarina sempre teve uma característica municipalista. Os prefeitos tradicionalmente exerceram influência muito maior do que em outros estados brasileiros.

 

Mas o que está acontecendo agora parece ser algo mais profundo.

 

Os prefeitos não são apenas lideranças locais influentes. Estão se transformando nos principais fornecedores de candidatos para os cargos mais importantes do Estado.

 

Isso muda a lógica da política.

 

Muda a forma como os partidos escolhem seus candidatos.

 

Muda a relação entre governo estadual e municípios.

 

E muda até mesmo o perfil das futuras lideranças.

 

Cada vez mais, a experiência administrativa passa a valer mais do que a trajetória partidária.

 

Existe um problema escondido nessa transformação

 

Mas nem tudo são vantagens.

 

Se as prefeituras se tornaram a principal escola política do Estado, surge uma pergunta inevitável.

 

Quem está formando as lideranças estaduais que não são prefeitos?

 

Quem está preparando os próximos quadros para a Assembleia, para a Câmara Federal, para o Senado ou para o próprio governo?

 

A resposta não é tão clara.

 

Os partidos continuam com dificuldade para renovar seus espaços. Muitas lideranças jovens encontram barreiras para crescer. Deputados estaduais e federais frequentemente ficam presos a bases regionais. E o debate político acaba girando em torno dos mesmos nomes por longos períodos.

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O risco é que Santa Catarina passe a depender excessivamente de um único modelo de formação política.

 

E nenhum sistema se fortalece quando possui apenas uma porta de entrada.

 

A próxima geração já existe?

 

Essa talvez seja a pergunta mais importante da política catarinense hoje.

 

Os nomes que dominam o cenário atual continuarão influentes por muitos anos. Mas nenhuma liderança é eterna. Nenhum grupo político permanece para sempre no comando.

 

Quem ocupará esses espaços daqui a dez ou quinze anos?

 

Os partidos estão formando sucessores?

 

As câmaras municipais estão produzindo lideranças de alcance estadual?

 

As universidades, entidades empresariais e movimentos da sociedade estão conseguindo dialogar com a política?

 

Ou estamos simplesmente assistindo ao prolongamento dos mesmos ciclos?

 

Responder a essas perguntas talvez seja mais importante do que discutir a próxima pesquisa eleitoral.

 

 

PONTO DE VISTA

 

A ascensão dos prefeitos não é um problema. Na verdade, ela revela uma virtude da política catarinense. O eleitor parece valorizar cada vez mais quem teve a responsabilidade de administrar, tomar decisões e enfrentar problemas concretos.

 

Mas existe um alerta embutido nesse movimento.

 

Quando um sistema político passa a produzir lideranças quase exclusivamente por um único caminho, ele começa a limitar sua própria capacidade de renovação.

 

Santa Catarina virou uma fábrica de prefeitos. E muitos deles estão se transformando em governadores, senadores, deputados e protagonistas estaduais.

 

A pergunta que ainda não foi respondida é outra.

 

Quem está formando os líderes que virão depois deles?

 

Porque toda geração política imagina que terá tempo para preparar seus sucessores.

 

A história mostra que o tempo costuma passar mais rápido do que os partidos imaginam.

 

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