Ele não veio ao mundo como um homem qualquer, veio como Urbano Manoel Duarte [in memoriam], ou simplesmente Mané, como era carinhosamente chamado pelos mais próximos. Esse Mané de quem falo é meu cunhado. Lembro-me bem do dia em que o conheci. Minha família e eu estávamos em cima de um caminhão de mudança, deixando Amambaí, no Mato Grosso do Sul, rumo a uma nova fazenda, situada entre Bonito e Aquidauana. Ele, com sua toca-discos Sonata e cerca de 40 LPs guardados em uma sacola de plástico, estava indo para mais um baile, um de seus hobbies de solteiro.
No mesmo caminhão, estava Joel, o então namorado da minha irmã mais velha, Zulmira. Éramos novos na fazenda, até então de propriedade do senhor Vilela, que havia sido recentemente adquirida pelo senhor Nascimento de Oliveira Nunes. Tudo aconteceu em uma noite de sábado, enquanto abríamos a porteira para entrar na nossa nova morada, a futura Fazenda Santa Terezinha. Com 26.000 hectares, a fazenda abrigava três sedes, muita mata, diversos rios – entre eles o Bolívar, o Rio dos Peixes e o Rio das Mortes – além de vários córregos e riachos.
A casa principal, feita de madeira tratada, já estava vazia quando chegamos. No domingo de manhã, lá estava o Mané, como era costume, ordenhando as vacas ao nascer do dia. Meu pai, Antônio, havia assumido o posto de administrador da fazenda, e estávamos começando nossa nova vida ali. Minha mãe, Lidovina, e meus três irmãos – Luiz [in memoriam], Zulmira e Sonia, a caçula – exploravam os arredores. Conhecemos o curral, o galinheiro, o paiol de milho, o mangueirão de porcos, além do gelado Rio Bolívar, de águas salobras e repleto de peixes.
A sede da fazenda tinha uma grande cozinha com fogão à lenha, uma varanda ampla e capacidade para criar até 500 porcos. Além das galinhas, havia gansos, marrecos, perus, cabras, ovelhas, cavalos, e mais de 20 mil cabeças de gado, principal atividade da fazenda. Marta, esposa do fazendeiro e prima de minha mãe, era responsável pela produção de uma infinidade de derivados do leite, como queijos frescos, curados, de trança e cabaça, além de requeijão, doces caseiros, rapaduras, melado e açúcar mascavo, que eram comercializados na região.
O que sei fazer hoje, aprendi muito com meu cunhado Mané. Desde construir cercas e conduzir gado até arriar e montar cavalos, foi ele quem me ensinou. Sob sua orientação, aprendi a pescar, armar armadilhas e lidar com cavalos, usando a doma racional. Ele me mostrou como construir casas de pau a pique, utilizando materiais naturais como cipó, bambu e barro. Sem pregos, levantávamos casas com técnicas antigas, e até os móveis, como camas de tarimba e utensílios, eram feitos à mão. Mané também era habilidoso em fazer laços, redes de pesca e todos os acessórios necessários para a lida com o gado.
Como pessoa, Mané foi um dos seres humanos mais generosos e habilidosos que já conheci. Sempre calmo e gentil, também era um cozinheiro de mão cheia. Quando achávamos que ele já havia temperado o suficiente, ele surgia com mais um raminho de ervas frescas colhidas em sua horta orgânica. Um dos seus pratos preferidos era o arroz carreteiro, sempre acompanhado de um feijão tropeiro delicioso. Também fazia pães, broas e queijos com maestria.
Mané se casou com minha irmã Zulmira em 1974, e dessa união nasceram Márcia, Roberto e Claudemir, que lhes deram os netos Felipe, Nathan, Bianca, Natalia, Walkiria e Rodrigo. Ele nos deixou cedo demais, e sua ausência foi profundamente sentida, especialmente pela família. Partiu antes do tempo combinado e foi morar com Deus, deixando saudades eternas. Esta é minha singela homenagem a Urbano Manoel Duarte, o nosso querido Mané, um homem de grandes virtudes e coração ainda maior.















