“Não há o que comemorar”, diz Soraya ao criticar distração feminina com datas simbólicas e ausência de poder real
Em discurso e em entrevista concedida ao Grupo RDM, a senadora sul-mato-grossense cobra paridade efetiva no Congresso, critica lentidão de projetos para mulheres, como o PRS 5 de 2025, e analisa indicação de Messias ao STF
Por Humberto Azevedo
Em um discurso franco e por vezes emocionado durante a abertura da exposição “Mulheres na Redemocratização”, a senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS) lançou uma crítica contundente à política brasileira, afirmando que as mulheres são mantidas distantes dos centros reais de poder e se distraem com celebrações simbólicas, enquanto a igualdade de fato não avança. Ela declarou não comemorar mais a conquista do voto feminino por considerar “ilógico” ainda lutar por direitos básicos.
Na entrevista concedida à reportagem do Grupo RDM que se seguiu, a parlamentar detalhou os obstáculos para aprovar políticas de equidade, como a cota de cadeiras para às mulheres nas casas legislativas do país, e revelou a paralisia de um projeto de sua autoria que prioriza matérias sobre violência contra a mulher, que sequer foi despachado pelo presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Ela comentou também sobre a sabatina do indicado pelo presidente Lula à Suprema Corte, o advogado-geral da União, Jorge Messias.
“É o mês da Márcia, Dia Internacional da Mulher, é CSW (Commission on the Status of Women – na sigla em inglês – que na tradução é Comissão sobre a Situação das Mulheres, dedicada à promoção da igualdade de gênero e do empoderamento das mulheres) na ONU (Organização das Nações Unidas), aí é o agosto lilás, é outubro roxo, eu já não sei mais nem as cores. Porque a gente se distrai. Enquanto isso, parcela significativa dos homens no poder estão cuidando do que interessa”, afirmou durante o pronunciamento.
“Eu não comemoro mais, porque eu acho ilógico. Gente, pelo amor de Deus, já estava na Constituição e já estava na CLT [Consolidação das Leis Trabalhistas]. E mesmo assim, continuam não respeitando. A gente vai ter que desenhar?”, questionou, referindo-se à recente lei de igualdade salarial sancionada pelo presidente Lula.
COTAS E RESISTÊNCIA
Um dos pontos altos de sua fala foi a denúncia da resistência interna, inclusive entre mulheres, a mecanismos que garantam mais cadeiras no Legislativo. Ela relembrou a aprovação no Senado de um escalonamento de cadeiras para mulheres nos parlamentos, posteriormente barrado na Câmara.

Na entrevista, questionada sobre como reverter a sub-representação das mulheres na política brasileira, a senadora foi taxativa ao atribuir que parte do problema ocorre em virtude da desunião das próprias mulheres e da falta de engajamento da sociedade civil.
“Nós estávamos brigando por causa de cadeira. [Não tínhamos] uma cadeira na bancada, na liderança feminina para sentar. (…) Olha, se a questão da cota ainda tem dificuldade de ser sequer discutida aqui no Congresso Nacional… Imagine só, é triste chegar ao ponto de fazer uma análise fria de que não evoluímos em nada”, desabafou.
PROJETO PARADO E SABATINA
A senadora expôs a paralisia de um projeto emblemático de sua autoria, o Projeto de Resolução (PRS) 5 de 2025, que altera o Regimento Interno do Senado e Comum do Congresso para dar precedência a todas as proposições que tratam do combate à violência contra a mulher. O projeto foi apresentado em 19 de fevereiro de 2025, mas até o momento sequer foi despachado pela presidência do Senado.

Durante a entrevista, ela revelou ainda ter feito um pedido direto ao presidente da Casa, Davi Alcolumbre, para que a matéria andasse, mas a solicitação não foi atendida. A inércia ilustra a lentidão e a falta de prioridade que ela critica.
“Eu vou falar para o presidente Davi, eu quero esse PRS 5 andando, que tem a prioridade de tramitação. Tudo que for de violência contra a mulher. Mas é muito triste. (…) Perguntem para mim se algum andou. Então, todo mês de março nós somos enganadas… Algum tramitou? É tudo mentira, gente. É tudo mentira”, comentou disparando sua frustração com a falta de avanço de proposições em favor das mulheres.
ALIADOS E SOCIEDADE
Apesar das duras críticas, a senadora reconheceu a importância dos aliados homens na luta por equidade e citou nominalmente o senador Fabiano Contarato (PT-ES) como um exemplo a ser seguido, por ter proposto uma cota de 50% de candidaturas femininas no relatório ao Projeto de Lei Complementar (PLP) 112 de 2021, que trata de promover uma reforma eleitoral.

Por fim, tanto no discurso quanto na entrevista, Thronicke fez um apelo veemente para que a sociedade civil se engaje na causa, argumentando que sem pressão externa, o progresso dentro do Congresso será mínimo, pois a sociedade brasileira, em sua visão, ainda não entendeu a urgência da equidade.
O nome dele é Fabiano Contarato. Este homem, sim. Teve a coragem… e fez a proposta 50-50. Esse é o homem. Esse é homem mesmo. (…) A sociedade civil precisa entrar nesta campanha. Eu não vou falar nessa luta porque a gente não aguenta mais lutar. Entendeu? Nesta campanha em prol da equidade de verdade em todos os lugares”, concluiu.
ENTREVISTA
Abaixo, segue a íntegra da entrevista que a senadora Soraya Thronicke concedeu à reportagem do Grupo RDM.
RDM: Qual a importância dessa exposição sabendo que o Brasil tem uma sub-representação feminina não só no Congresso, na Câmara, no Senado, mas nas Assembleias Legislativas, nas Câmaras Municipais, nas prefeituras e nos governos estaduais. Como resolver isso, se não for por meio de cota? Já que estabelecer uma mudança cultural leva longo prazo?

Soraya Thronicke: Olha, a questão da cota ainda tem dificuldade de ser sequer discutida aqui no Congresso Nacional, nas Casas Legislativas, porque aqui eles não querem nem discutir, eles não querem colocar para discussão. Imagine só, é triste chegar ao ponto de fazer uma análise fria de que não evoluímos em nada. É importante o equilíbrio entre homens e mulheres por conta de suas características. É importante. E não só por sermos mulheres, é porque somos capazes. Não todas as mulheres são capazes, mas também todos os homens não são capazes. E a gente vê aqui, a gente vê a diferença do nível de escolaridade, de estudo de cultura das mulheres com os homens. Então, se você for fazer uma média, é lastimável. Mas, enfim, não vejo futuro aqui dentro se a sociedade não se unir a inúmeros projetos de lei, inclusive, dentro que podem ser executados em prefeituras e tudo, desde ter um lugar pra você comprar sua marmita bem barata, para lavar roupa, comunidades que podem se desenvolver para facilitar a vida das mulheres. Porque não adianta. Nós assumimos, por mais que a gente queira, que o homem hoje em dia faz uma jantinha, lava uma loucinha. Ele é super legal porque ele… Nossa, que pai bom, não é? Ele cuida do filho, ninguém elogia a mulher. Mas tudo bem. Vamos lá. Nós assumimos mais. Nós somos mais preocupadas. Cobradas, principalmente. Então, assim, se a sociedade não se engajar, nós teremos muita dificuldade. E a sociedade brasileira ainda não entendeu.

A sociedade civil precisa entrar nesta campanha. Eu não vou falar nessa luta porque a gente não aguenta mais lutar. Entendeu? Nesta campanha em prol da equidade de verdade em todos os lugares. Porque se nós não segurássemos agora essa proposta de reforma eleitoral que veio no primeiro relatório, que eu acabei não dizendo ali, veio sem os 50% de garantia de candidaturas, colocando a culpa na gente. Por quê? Porque tem candidaturas laranjas. As mulheres permitem. Elas se sujeitam. Culpa nossa. Então, está tudo errado. Mas os próprios partidos, sabemos. Eles nos afligiam. Eles nos excluem, melhor dizendo. E a gente fica tendo que fazer campanha para mostrar à sociedade que mulher não é suco. A gente não tem nada a ver com… A maioria dos presidentes [dos partidos], só temos a Renata Abreu [do Podemos], que é do meu partido, que é mulher hoje. Não temos presidentes nacionais mulheres. Então, quem entende?

O meu gabinete já é lotado de mulher que acabou de ter nenê. Pode entrar fralda, pode entrar tudo. Entra cachorro, é pet friend, é bebê friend. Eu não estou nem aí. Pode tudo. Entendeu? Precisa levar o bebê, precisa amamentar lá. Eu não tenho restrições. Agora, a gente não tem… Sabe? Está muito difícil. Está muito difícil. Acho importante a gente lembrar que neste 25 de novembro, um dia internacional de luta contra a violência que se abate contra as mulheres, seja aqui, seja onde for, mas a gente precisa, assim como o racismo, a gente precisa trabalhar muito, porque a nossa sociedade, além de racista, ela é misógina. O ódio às mulheres, basta que a gente comece a falar um pouco mais alto, como a senadora Soraya, não é? Dizer algumas impropriedades até, não é? Ela vai ser logo tachada, como ela mesma acaba de dizer, de louca, nossa, não. Mas o homem quando grita, ele é machão, ele é firme. Mas nós aprovamos na CCJ, eu fui a relatora agora. Foi uma briga. Foi uma briga. Quem acompanhou na CCJ, viu. Só que eu quero ver, vai pra câmara. O projeto de lei que a gente aprovou na CCJ, que deu aquela briga minha com o [Jorge] Seif (PL-SC), que é para equiparar o crime de feminicídio ao racismo. E tem, então, a misoginia. Porém, agora, a batalha continua, porque eu acho que ele é, a casa iniciadora foi o Senado, se eu não me engano. Vai para a Câmara. Vai ser enterrado lá?. Tomara que não.
RDM: A Srª vê alguma chance de reverter esta situação?

Soraya Thronicke: Eu não vejo ainda, não, porque já deu um ano. Eles enterraram aqui a reforma eleitoral, porque eu estava dando cambalhota. E assim, hoje, lá no plenário, eu vou falar para o presidente Davi, eu quero esse PRS [Projeto de Resolução] 5 [que estabelece a precedência para as proposições que tratam do combate à violência contra a mulher] andando, que tem a prioridade de tramitação. É hoje o dia. Tudo que for de violência contra a mulher. Mas é muito triste. E aí a gente vira número. Entendeu? Se não é a Marlene, se não é a Nelma, é a Neusa. Somos… O presidente se comprometeu a colocar essa… Ele tá assim, nossa, eu vou ser execrado em praça pública. Eu falei, você vai ser sempre eleito e reeleito. Porque eu vou sair do… Vou fazer o que você quiser. Pega o pessoal que tem empatia comigo, vou pedir voto para ele, paro o candidato dele. Não existe esse perigo, esse medo. Porém, os homens torcem o nariz. Só que eu vejo essa pauta como muito positiva, ainda mais liderada por um homem, sabe? Então, é bom que vocês reverberem aí na imprensa…
RDM: Sobre a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para ocupar a vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), que era do ministro aposentado Luís Barroso, qual a expectativa? Como é que estão os bastidores desta indicação?

Soraya Thronicke: Ele vai conversar com todos. É natural. E eu entendo assim, é importante que essa sabatina seja feita logo. Nós temos a primeira turma hoje com desfalque. Se nós temos uma votação que deve ser desempatada, como é que nós vamos desempatar? Eu não sei. Sinceramente, quando houve … foi referendado por unanimidade a questão da prisão preventiva do ex-presidente, eu percebi e se fosse dois a dois teria que vir o presidente da casa, o Fachin, quem iria desempatar? Então a Corte está desfalcada. O país não pode ficar desfalcado. Muitas demandas. Eu entendo que tem que ser rápido. Eu acredito que o presidente tenha feito uma… esteja seguro do que está fazendo. Tecnicamente o Messias é muito preparado. Como pessoa eu conheço pouco, mas todas as vezes que estive com ele vi no Messias uma pessoa muito cordata, muito respeitosa e muito atenciosa. Todas as vezes que eu precisei, o Messias me atendeu com muita presteza. Então, eu entendo que demorar não é bom e nós precisamos entrar o ano que vem para trabalhar, sabe? Porque se não a gente fica nessa guerra política e as instituições não caminham e isso vai impactar o país. As guerras políticas precisam cessar, sabe? Porque, imaginam, um mandato executivo de quatro anos. No primeiro ano você tem que tomar pé da situação. Ainda mais quando não foi sequer passada a faixa. Onde não teve transição. Você cai de paraquedas com todo mundo, não pode mandar todo mundo embora, você não pode tirar todo mundo dos cargos, é o que a gente está vendo no problema do INSS, porque são técnicos, se não você para a atividade, você para a prestação do serviço. Certo? E aí um ano para você tomar pé da situação. No segundo, a campanha de 2024.
RDM: Qual a expectativa? Fevereiro, março?
Soraya Thronicke: É, eu acho que vai ter uma pressão para ser logo em fevereiro, não é? As atividades voltam no dia primeiro de fevereiro e tem que ter. Agora, a questão é política, não é? É política. Vamos ver.
RDM: E como está a relação dos Três Poderes, do governo com o parlamento, o momento é difícil, como avalia? E essa pressão do Alcolumbre em querer que o indicado fosse o senador Rodrigo Pacheco?

Soraya Thronicke: Sim, é. É importante você dar para um outro poder também um sinal. Principalmente porque ano que vem, assim, com a inelegibilidade inafastável e irreversível de Jair Bolsonaro, as chances do presidente do Brasil ser reeleito são enormes. Enormes. Pelos números que nós estamos vendo, eu falo em números, tá? Absolutamente independente e falo em números. Então, assim, ele tem chances e ele terá três cadeiras. Esta cadeira do Barroso é uma cadeira extra. Então, de repente, poderia… Não sei. Porque temos quadros bons aqui no Senado. Pessoas capacitadas para sentarem naquela cadeira. Então, fazer um sinal para o Congresso, eu acho importante. E não entrarmos nessa guerra. Agora, respeitar também a prerrogativa dele é importante. Eu nunca fui contra nenhuma indicação. Pelo contrário, sempre ajudei todos aqui. E eu entendo que é uma prerrogativa do chefe do Executivo. Sabe? Então… E também não tem problema nenhum lá no STF, graças a Deus. A pessoa tem que ter dois critérios. Notório saber jurídico e conduta ilibada. Passou nessa regra. Eu acredito que ele tenha passado porque ele não tem nenhum teto de vidro. E notório saber jurídico ele também tem. Então, assim, o resto é política. E política, gente, vocês sabem.
RDM: Agora, para terminar, senadora, 2026 é ano de eleição, a senhora foi eleita senadora em 2018, como vai ser o futuro político da senhora?
Soraya Thronicke: Reeleição.


























