Foi “um tiro no pé”, diz economista-chefe da Fiesp sobre tarifas de Trump ao Brasil
Para o representante da maior entidade industrial do país, a estratégia norte-americana de atingir o Brasil tarifando às exportações brasileiras para aquele país vai resultar numa maior diversificação dos produtos brasileiros pelos países do mundo.
Por Humberto Azevedo
Em entrevista ao site “RT Brasil”, o economista-chefe da Federação de Indústrias do estado de São Paulo (Fiesp), principal associação do setor industrial do Brasil, Igor Rocha, foi “um tiro no pé” na economia dos Estados Unidos as tarifas impostas às exportações do Brasil pelo presidente daquele país, Donald Trump.
Para o representante da maior entidade industrial do país, a estratégia norte-americana de atingir o Brasil tarifando às exportações brasileiras para aquele país vai resultar numa maior diversificação dos produtos brasileiros pelos países do mundo. Entretanto, isso não significa que as medidas tarifárias adotadas pelos EUA não causem estragos em setores da economia brasileira.
“A gente vê um cenário com uma economia norte-americana mais inflacionada e com menos crescimento. Então, nesse sentido, eu entendo que sim, que é um tiro no pé. Dito isso, para os países que estão sendo exatamente tarifados, e tarifados de uma maneira com uma taxa mais alta, a saída é galgar novos mercados”, comentou.
MAIS BRICS
O economista-chefe da Fiesp aponta que tanto as parcerias com os países que integram o bloco econômico dos BRICS, como o próprio acordo do Mercosul com a União Europeia são horizontes que ajudarão ainda mais a economia brasileira mediante o cenário de portas fechadas que a ainda maior economia do planeta vem promovendo com justificativas de fomentar o que é produzido naquele país, ao mesmo tempo em que as usa como uma arma de geopolítica – sendo para que países não comprem petróleo da Rússia, ou não promovam julgamentos considerados arbitrários pela Casa Branca com é o caso brasileiro.
“E nesse sentido, o próprio acordo União Europeia-Mercosul pode nos ajudar bastante. E daí a necessidade de acelerar ele, para que ele, de fato, seja colocado em prática num momento que a gente precisa suprir exatamente essa perda de mercado americano. Acho que todos esses países são potenciais para a gente alocar, de alguma forma, produtos e expandir mercado”, complementou.
“Eu não vejo os BRICS como uma preocupação ou como uma justificativa [dos EUA], vejo os BRICS, talvez, como uma desculpa para justificar exatamente o que está sendo posto, porque do ponto de vista prático, não aconteceu muita coisa que justificasse a medida” tarifária adotada pelo governo norte-americano, completou o Igor Rocha.
ÍNTEGRA
Abaixo, segue a íntegra da entrevista que Igor Rocha concedeu ao site “RT Brasil” na última quarta-feira, 3 de setembro, quando o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDICS) anunciava – que apesar das tarifas dos EUA – o Brasil alcançava recorde de exportações nos primeiros oito meses do ano, registrando superávit de R$ 32,94 bilhões (US$ 6,1 bi) apenas no mês de agosto, quando começaram a valer as tarifas de Trump.
Como o parque industrial brasileiro e paulista está vinculado ou até dependente dos EUA?
[Foram] 696 produtos, quase 700, que ficaram nessa lista de exceções, que ajudou bastante a arrefecer a pressão que tinha para a contração da economia. Ou seja, a tarifa vigente hoje para a maioria dos produtos é 10%, porque tirou aquele adicional de 40%. Ao tirar esse adicional de 40%, a gente tinha feito uma análise de impacto pré-exceções e após essas exceções. Após essas exceções, que é o que está valendo hoje, a gente estima um impacto de 0,2% no PIB para o ano de 2025 e 0,38% no PIB para o ano de 2026.
Por que o ano que vem é maior?
Porque você tem o ano cheio. Para São Paulo, esse impacto acaba sendo um pouquinho maior. Brasil 0,20% São Paulo 0,28%. Ano que vem, 2026, Brasil 0,38% e São Paulo 0,45%. Muito porque diversos setores que são afetados exatamente por esse tarifaço estão em São Paulo. É um exemplo, por exemplo, máquinas agrícolas. Muitas máquinas agrícolas são feitas aqui no estado de São Paulo. Então, a gente exporta muita máquina agrícola, os Estados Unidos são uma potência agrícola tal como o Brasil, então eles importam esse tipo de equipamento para a sua produção. Há outros setores, móveis, pescados, café, enfim, que também não conseguiram figurar nesta lista de exceções e que vão ser afetados. É verdade que no agregado, quando a gente olha 0,2%, acaba sendo até um efeito baixo para um país de proporções continentais como o Brasil, mas para esses segmentos que eu citei, que não conseguiram a sua exceção, é um impacto muito relevante. Diversos estão extremamente preocupados exatamente por inviabilizar a sua produção uma vez porque você não tem para onde escoar isso. E daí sim, os exemplos que você citou de diversas empresas dando férias coletivas, pausas temporárias para ver como que se acomoda aí o futuro.
E de que forma o nosso parque industrial é vinculado ou até dependente dos Estados Unidos?

Do ponto de vista tecnológico, o Brasil até que tem uma grande conexão não somente com os Estados Unidos, mas também com diversos países do mundo. Então, quanto a máquinas, equipamentos para o processo produtivo, eu não acho nem que é esse o ponto que afeta, porque a gente não está tendo nenhum tipo de retaliação sobre os Estados Unidos, não houve nenhum tipo de retaliação nesse sentido. Então, não há essa preocupação de afetar o nosso processo produtivo por faltar algum tipo de equipamento, algum tipo de insumo. A preocupação é exatamente tentar realocar a produção para novos mercados, aqueles que são possíveis. E eu acredito sim que haverá, neste processo, ele vai ser dinâmico, não acho que essa lista de 696 produtos vai ficar desse jeito, eu acho que muita coisa ainda deve ser inserida. Um exemplo, por exemplo, é o café, eu acho que em algum momento o café deve ser inserido porque não faz muito sentido para os Estados Unidos tarifar café, porque os Estados Unidos não tem praticamente nenhum pé de café. Então o maior, quem mais sofre exatamente com uma inflação do café no respectivo país é os Estados Unidos. A gente ainda tem, de alguma forma, como fazer uma realocação de parte dessa produção, parte dessa exportação, mas acaba sendo um jogo, ao invés de um ganha-ganha, de perde-perde. Então tem coisas que eu acho que ainda vai ter durante as negociações, um reajuste, uma acomodação para assentar, porque tem coisas que não fazem sentido nenhum.
Agora falando dos setores mais afetados, as medidas anunciadas dentro desse Plano Brasil Soberano, criado pelo governo federal, poderão ser suficientes para atender essa perda de capital?
Os vetores desse plano, muitos deles foram gestados inclusive aqui, junto com o presidente [da Fiesp] com o vice-presidente Geraldo Alckmin, que também é ministro de Indústria e Comércio, captando contribuições de diversas federações, associações, instituições empresariais e industriais, para tentar exatamente moldar algo que conseguisse atenuar essas tarifas. Então, do ponto de vista dos vetores, a gente está com um grande acordo com o que foi apresentado. Tem uma parte que falta ainda, que é a chamada regulamentação, que daí viram os detalhes da mecânica, da operacionalidade de diversas linhas, do custo de diversas linhas. Então, esses pormenores, a gente ainda vai aguardar um pouquinho para a gente entender. É claro que tudo que está anunciado ali ajuda a reduzir exatamente esses impactos do tarifaço, mas de forma nenhuma vai zerar, vai retirar o efeito desse tarifaço, porque daí é um pouco impossível, sobretudo no curto prazo, você conseguir fazer uma manobra tão grande para reduzir por completo os efeitos. Mas é uma ação que, sem sombra de dúvida, ajuda bastante e foi construída junto com a iniciativa privada.
Segundo diversos estudos, os países membros do BRICS seriam o mercado mais promissor para posicionarmos esses produtos brasileiros que estão agora recebendo um novo imposto dos Estados Unidos. Isso confere?

Eu acho que a forma como está sendo tratada a questão comercial, não só com o Brasil, mas com diversos países ao redor do mundo, Canadá, México, Índia, que a gente está vendo que estão sendo tarifados de maneira bastante significativa, parceiros comerciais históricos, eu acredito que vai ter um custo bastante grande para os Estados Unidos, quanto sobretudo à inflação e desaquecimento da economia. A gente viu os últimos dados da economia norte-americana, já começa a aparecer sinais preocupantes quanto ao nível de emprego, muitas poucas vagas criadas nos últimos dados divulgados pela autoridade americana. O [Jerome] Powell, que é o presidente do FED [Sistema de Reserva Federal] americano, que é o Banco Central americano, se manifestando quanto à preocupação nesse sentido, e dando de alguma forma até uma sinalização de possível redução da taxa de juros americana, abrindo porta para isso, diante dessa preocupação. Então, sim, a gente vê um cenário com uma economia norte-americana mais inflacionada e com menos crescimento. Então, nesse sentido, eu entendo que sim, que é um tiro no pé. Dito isso, para os países que estão sendo exatamente tarifados, e tarifados de uma maneira com uma taxa mais alta, a saída é galgar novos mercados. Para a parte de produtos primários do Brasil, o direcionamento mais lógico de curto prazo, de fato, é a Ásia, o Sudeste Asiático, é a China, porque tem exatamente essa complementaridade. Eles com a manufatura, nós com o suprimento agro, da agropecuária. Pelo bloco Brasil-Europa, daí eu acho que a gente já pega um outro tipo de produto, que são os manufaturados propriamente ditos. E nesse sentido, o próprio acordo União Europeia-Mercosul pode nos ajudar bastante. E daí a necessidade de acelerar ele, para que ele, de fato, seja colocado em prática num momento que a gente precisa suprir exatamente essa perda de mercado americano, pelo menos no curto prazo.
E dentro dos BRICS, além da China, quais outros países poderiam ser esse mercado alternativo para os produtos brasileiros?
Daí eu acho que os países com o bloco geral, de fato, a Rússia, a Índia, a África do Sul, acho que todos esses países são potenciais para a gente alocar, de alguma forma, produtos e expandir mercado. Por um lado, os BRICS suscitam, de acordo com o que está sendo posto por Washington, algum tipo de preocupação, e poderia ser interpretado até mesmo como uma justificativa para o que está… Eu não vejo os BRICs como uma preocupação ou como uma justificativa, vejo os BRICs talvez como uma desculpa para justificar exatamente o que está sendo posto, porque do ponto de vista prático, não aconteceu muita coisa que justificasse a medida, está certo? Agora, dado que a tarifa está sendo posta, os BRICS, como com qualquer país, sobretudo talvez até mais com aqueles que estão fora do bloco, surgem como potenciais que precisam ser trabalhados para expandir novos mercados.
O mecanismo de pagamento interno já está em discussão em algumas cúpulas do BRICS, mas ainda não é uma realidade. Então, a tendência é abandonar o dólar e isso poderia gerar algum tipo de benefício para o Brasil?
Veja, qualquer tipo de desintermediação financeira que você reduza, falando em economia, os chamados custos de transação, é positivo. O fato é que, por hora, o dólar é a principal moeda mundial que é utilizada nas relações comerciais nas mais diferentes regiões. É verdade que quando você pega algumas regiões do Oeste Asiático, alguma desintermediação já está ocorrendo, sobretudo mediante a utilização da moeda chinesa. Eu acho que essa preocupação que surgiu por parte dos Estados Unidos no momento é um pouco exagerada, até porque eu acho que fomentar, por exemplo, cripto ativos e moedas alternativas seria um risco muito maior para o dólar do que uma moeda comum, somente para transações comerciais, que é o que está se cogitando, mas ainda de forma muito distante no âmbito dos BRICs.
Saindo o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia poderia colocar em risco o mercado automotivo brasileiro, que exporta 40% para o bloco sul-americano?
Quando a gente conversa com o setor automotivo, eles não têm essa visão, eles têm uma visão muito mais de complementaridade. Determinados segmentos do setor que são produzidos aqui e não são feitos lá, e vice-versa, então teria um sentido maior de complementaridade. Hoje o Brasil tem um setor de média e tecnologia muito consolidado, historicamente, e o que a literatura, a pesquisa de fronteira mostra é que é muito mais fácil você manter os setores que você tem do que galgar novos setores. Então quando você olha dentro dessa complementaridade, fazer um acordo União Europeia-Mercosul ajuda a consolidar exatamente esses setores ingentes aqui da economia brasileira. E desses setores, na Europa, eles estão extremamente competitivos, o nosso agro aqui é muito competitivo lá, o setor têxtil, por exemplo, brasileiro é muito competitivo lá, e poderia sentar dentro da indústria de transformação outros setores que a gente tem esse exemplo de competitividade nesse sentido que a gente olha o acordo União Europeia-Mercosul muito mais como uma complementariedade do que um risco.
Você acredita que a gente tem esse lugar assegurado?
Sim, sem sombra de dúvida. Eu acho que há uma visão de complementaridade, acho que de uma maneira bastante abrangente. A indústria apoiou isso, junto com outros setores “tradables” da economia, que são setores que você consegue negociar com outros países. Você compra, você vende, o setor de serviço geralmente é um setor, por exemplo, não “trade” [Usado para o conceito geral de compra e venda de bens, especialmente em larga escala ou entre países], você pega um serviço de infraestrutura, uma ponte, mais tarde você não consegue exportar. Então, você pega o agro, você pega a indústria, são setores que você troca, então você consegue exportar. E nesse sentido, foi amplamente apoiado.
Quais setores poderiam ser mais beneficiados com a implementação da chamada indústria 4.0 no Brasil?
O setor que, do ponto de vista positivo, teria os ganhos mais evidentes é a indústria de transformação. Por que eu falo que é a indústria de transformação? Quando você pega o setor industrial, ele vai ter a indústria extrativa, vai ter a indústria de transformação, que é a manufatura, que faz o paletó, que faz a cadeira, que faz o celular, e você vai ter a construção civil. Por isso que aqui, durante a gestão do atual presidente, o presidente Josué, no primeiro ano, a gente já lançou o programa de transformação digital da indústria, que é chamado de jornada de transformação digital. A ideia era exatamente, por meio da indústria 4.0, fazer uma otimização, ganhos de eficiência, ganhos de produtividade do setor industrial, porque é aquele que a gente identifica que teria os maiores ganhos e um espraiamento de inovação, de tecnologia, de produtividade para outros setores da economia. Segundo dados da própria federação, cerca de 80% da nossa capacidade industrial instalada está sendo utilizada.
Então, tendo isso em conta, como você avalia o programa Nova Indústria Brasil, que foi criado pelo governo federal para promover essa reindustrialização?
Então, a gente trabalhou junto para exatamente elaborar esse programa. Os recursos disponíveis, no primeiro momento, foram de 300 bilhões, e hoje já está em cerca de 500 bilhões. Muito do que ocorreu no ano de 2024, com a indústria, de uma forma geral, crescendo 3,7%, se deu sem sombra de dúvida também devido ao Nova Indústria Brasil. Só que o que acontece é que o setor industrial é um setor muito sensível a juros, diferente de outros setores da economia, como o agronegócio, como o serviço. Porque a indústria não tem alguns mecanismos de captação de recursos junto ao mercado, crédito subsidiado, que no momento de elevação dos juros consegue atenuar esse impacto muito grande. Por isso que, na casa, a gente calcula que na indústria de transformação, na manufatura, que é esse subsegmento do setor industrial, o impacto dos juros geralmente é cerca de 60% maior do que o resto da economia.
E isso ajuda também a explicar o porquê que neste ano, agora de 2025, a indústria está arrefecendo, está perdendo dinamismo, exatamente por esses juros mais baixos, que eram um momento diferente quando a gente compara com o ano passado, com o ano de 2024?
A indústria deve voltar a se recuperar no que vem, quando a gente vê, enxerga uma queda dos juros de maneira mais expressiva e este, sim, conjugado com a Nova Indústria Brasil, pode ajudar a retomar o papel da indústria de transformação e da indústria em geral quanto ao crescimento econômico. Justamente, os dados macroeconômicos demonstram que nós temos as menores taxas de desemprego da última década, as vendas da indústria cresceram cerca de 7% no último ano, nós também tivemos um crescimento econômico de cerca de 3,4%, superior à média global em 2024.
Então, diante desse cenário, como entender que o Brasil continue tendo uma das maiores taxas de juros do planeta?
Essa é uma das grandes perguntas para economistas brasileiros. Qualquer país com uma taxa de juros de 15% teria o que a gente brinca de uma recessão bíblica, talvez. E o Brasil, com uma taxa de 15%, consegue apresentar um crescimento de quase 3%. É algo difícil de se explicar. Qualquer outro país teria uma desaceleração muito forte. Tem uma parte que é uma brincadeira, que a gente fala assim, olha, o Brasil é uma espécie de um besouro, um besouro pelas leis da física, ele não deveria voar, mas ele voa. Então, é mais ou menos o que acontece com o Brasil, se você olhar o juros e todas as suas condições adversas, não era para o país crescer 3%, ele cresce, quase 3%.
Por que o Banco Central aumenta o juro se a meta da inflação que é de 3% a a 4,5% no ano, como vem apresentando o índice de inflação?

Eu acho que esse é o ponto. Eu acho que a gente tem algumas distorções na economia brasileira que fazem com que a política monetária perca força. A gente tem crédito subsidiado para alguns setores, a gente tem linhas de captação de crédito que conseguem fugir exatamente da taxa de juros de mercado, tem uma taxa de juros menor. Para quem tem esse tipo de benefício, o que é muito bom, mas para os outros mortais que têm que lidar com uma Selic base, uma taxa de juros base de pelo menos 15% é muito ruim. E por isso é também que a gente olha que o Brasil tem um conjunto de distorções que tiram muita capacidade de crescimento sustentado de médio e longo prazo. Então, qual seria o certo? O certo seria a gente ter um campo onde as regras fossem o mais próximo dentro do possível, iguais para todos. Se aqueles que tivessem algum tipo de capacidade de performance melhor, é mostrar isso sem algo que te impulsione para trás com uma consequência ruim para o outro. Mas o Brasil, ao longo do seu processo histórico, ele gerou muitos tipos de desigualdades, gerou uma desigualdade social, que é essa vida muito grande de renda, gerou uma desigualdade regional, você vê as diversas regiões do Brasil e você tem regiões muito ricas e outras regiões muito pobres, e você tem uma disparidade, uma desigualdade setorial também. Quando você pega a indústria, ela tem 12% do PIB, mais ou menos, a manufatura, só a indústria da transformação é responsável por 28% da arrecadação tributária, porque tem setor que não paga nada, então a indústria fica sobrecarregada quanto ao pagamento de impostos. E na política monetária, isso acontece também, tem setores que esse juros de 15% não afeta da mesma forma que afeta o setor industrial. E daí, quando você olha na média, para a indústria tem que pagar um juros muito alto e outros setores pagam juros muito baixos, na média fica 15%, e isso acaba gerando uma distorção muito grande e essa perda de potência da política monetária que faz com que a gente tenha que permanecer, por exemplo, com juros tão altos por tanto tempo, que é muito ruim para isso.
Então, existe alguma espécie de oposição entre os interesses do mercado financeiro e o setor produtivo?

As explicações são diversas, não vai ter uma explicação única, não tem uma bala de prata para ajudar a explicar, mas tanto a academia nacional quanto a academia internacional apontam algumas coisas, primeiro que seria uma memória inflacionária, o Brasil viveu um período de inflação muito alto, que depois do Real isso mudou, mas ainda tem uma certa memória que faz com que a nossa inflação em determinados momentos tenha um repique muito maior do que um país desenvolvido com uma inflação já historicamente baixa. Você teria mais segurança jurídica, mais segurança institucional, você teria uma regulação dos mercados aqui, uma maturidade regulacional muito inferior a outros mercados, você teria muitos subsídios na economia brasileira, você teria uma estrutura tributária muito pouco eficiente, tem um conjunto de justificativas que, cada um, ao seu modo, ajuda a explicar isso. Mas a questão do mercado financeiro, obviamente eles vão reagir diante desse incentivo de uma taxa de juro alto e obviamente vão preferir investir em relações financeiras e não em relações produtivas. E do ponto de vista empresarial, o empresário também, em determinada medida, vai reagir da mesma forma. Na medida que ele avalia que o seu capital é muito melhor remunerado, colocando no mercado financeiro, no título público ou num título privado, que tenha uma remuneração de uma renda fixa, ele vai deixar de investir na expansão produtiva, na geração de empregos, porque não daria o mesmo retorno. Então, o Brasil tem esse problema, sim, que é o que explica a dificuldade que a gente tem de recuperar uma taxa de investimento sustentada e de longo prazo, o que faz com que diversas mazelas do país ainda persistam. O Brasil ainda é um país de renda média e não conseguiu fazer essa passagem para um país de renda alta e esses desafios ainda estão postos e a gente precisa conseguir resolver isso nas próximas gerações.
Se a gente seguir por esse caminho no Brasil, a gente não corre o risco de viver uma bolha inflacionária ou uma bolha de especulação financeira, como já atravessamos em outros países?
Não necessariamente, porque quando a gente fala da atuação do mercado financeiro, o mercado financeiro tem dois tipos de investimentos. Vai ter um investimento, a grosso modo, em renda fixa e um investimento em renda variável. O investimento em renda fixa acaba sendo uma resposta clara do nível de taxa de juros. Se você tem uma taxa de juros de 15% e eu retorno investindo em uma empresa de 10%, você vai preferir colocar nesses 15% numa renda fixa. Por outro lado, quando a gente olha a renda variável, ali você está investindo em espécies de participações de empresas. Quando você tem uma taxa de juros muito alta, geralmente o comportamento da renda fixa, da renda variável, vai muito mal. Então, dentro dessas opções que o mercado financeiro tem para investir, uma taxa de juros menor é condição fundamental para você ter uma melhor performance da renda variável. Hoje a gente tem o quê? Menor incentivo para a renda variável, que são ações de empresas, com maior incentivo para a renda fixa, que são títulos públicos e títulos privados, de dívida, que a gente está falando de títulos de dívida. Então a forma que teria para mudar isso e exatamente focar nesse pilar da geração de empregos, investimento produtivo, produção, exportação, aumento de capacidade instalada, seria a gente ter uma menor taxa de juros. Mas isso também não pode ser resolvido no que a gente fala numa canetada, porque senão você tem exatamente o efeito contrário, pode acontecer, você pode, sim, daí ter um repique inflacionário e você aí pode, sim, ter algo extremamente contraproducente para o crescimento da economia.



























