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ENTREVISTA

Cresce população indígena nas cidades de Mato Grosso e os desafios também

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Os avanços na urbanização, na alfabetização, e envelhecimento se tornam cada vez mais importantes

 

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou no fim do ano passado os resultados do Censo Demográfico 2022 com foco na população indígena. Os dados revelam informações importantes sobre demografia, alfabetização e condições de vida das comunidades indígenas, dividindo os resultados por contextos urbanos e rurais.

Mato Grosso conta com 58.356 indígenas, representando 1,59% da população estadual. Comparado a 2010, quando havia 51.696 indígenas (1,70%), houve um aumento de 12,88% na população, apesar de mudanças metodológicas que podem influenciar a comparação. A população total do estado é de 3.658.649 habitantes, sendo 86,27% urbanos e 13,73% rurais.

A população indígena em áreas urbanas cresceu significativamente: de 6.291 pessoas em 2010 para 10.117 em 2022, representando 17,34% do total indígena. Por outro lado, 82,66% (48.239 pessoas) permanecem em áreas rurais, sendo a maioria residente em terras indígenas. No entanto, o percentual de indígenas urbanos vivendo em terras indígenas caiu de 10% em 2010 para 2,39% em 2022.

O estado se destaca como o com maior percentual de indígenas em áreas rurais (82,66%), seguido por Maranhão (79,54%) e Tocantins (79,05%). A análise etária revela uma pirâmide jovem entre indígenas rurais, enquanto os urbanos apresentam um perfil mais envelhecido, com maior representatividade feminina nas faixas acima de 30 anos.

A idade mediana dos indígenas é de 18 anos, 14 anos abaixo da média estadual. Em áreas urbanas fora de terras indígenas, essa mediana sobe para 27 anos. O índice de envelhecimento é mais baixo entre indígenas: 13,91 contra 51,88 da população geral.

No campo educacional, a taxa de alfabetização indígena foi de 83,96%, inferior aos 94,17% da média estadual. Dentro de terras indígenas, o índice cai para 82,27%. A taxa de analfabetismo entre indígenas (16,04%) é 2,76 vezes maior que a da população geral.

A razão de sexo da população indígena é equilibrada, com 100,99 homens para cada 100 mulheres, mas varia conforme a localização. Em áreas urbanas, predominam mulheres (94,47 homens para cada 100 mulheres), enquanto em áreas rurais os homens são maioria (106,63 homens para cada 100 mulheres).

Os dados do Censo 2022 revelam avanços e desafios para a população indígena de Mato Grosso. O aumento da urbanização e o ritmo mais lento de envelhecimento destacam diferenças importantes em relação à população geral.

No entanto, persistem desigualdades em educação e acesso a recursos básicos. Esses indicadores são cruciais para o desenvolvimento de políticas públicas voltadas à valorização e ao bem-estar das comunidades indígenas no estado.

Diante do cenário atual em Mato Grosso, a Revista RDM MT Municípios conversou com Eliane Xunakalo, presidente da Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso (Fepoimt). Eliane, de 38 anos, ocupa o cargo desde 2022, quando foi eleita para a presidência da federação.  Indígena do povo Bakairi, natural do município de Bom Jesus do Araguaia, ela é formada em Direito, com especialização em Direito Administrativo.

Como presidente da Fepoimt, Eliane representa 46 povos indígenas e aproximadamente 60 mil pessoas no estado de Mato Grosso. Esses povos estão distribuídos por 13 biomas e mais de 100 municípios. A principal missão da Fepoimt é atuar como a voz dos povos indígenas, buscando garantir a visibilidade e a luta por seus direitos, especialmente no que se refere a territórios, educação e saúde.

Foto: Tchélo Figueiredo

A Fepoimt foi criada para assegurar o cumprimento dos direitos fundamentais dos povos indígenas, funcionando como uma organização de representação e defesa desses direitos. Abaixo, confira a entrevista exclusiva com a presidente da federação.

 

RDM MT Municípios: Presidente, como a senhora analisa os resultados da pesquisa do IBGE de 2022, que revelou um aumento na população indígena em Mato Grosso? qual a sua opinião sobre esse aumento?

 

Presidente Eliane Xunakalo: Eu percebo que talvez este seja o momento. O IBGE chegou às aldeias neste censo, algo que anteriormente não acontecia. O IBGE não visitava as aldeias, e isso tornava o processo muito difícil, sendo feito, na maioria das vezes, por amostragem. O crescimento populacional, aliado a essa visibilidade que estamos conquistando, nos colocou em pauta. Mas, principalmente, isso ocorreu porque o IBGE está chegando às comunidades e outras políticas estão sendo implementadas. Estamos nos tornando visíveis, inclusive dentro do nosso próprio estado.

Enxergo esse aumento na visibilidade — de quem somos, onde estamos e quantos somos — como um fator positivo. A chegada do IBGE representa também a chegada de outros organismos e órgãos, fortalecendo nossa presença e garantindo direitos.

 

RDM MT Municípios: Presidente, diante do crescimento da população indígena em Mato Grosso, também observamos um aumento significativo dessa população em áreas urbanas. Como a federação tem acompanhado essa mudança? O que a senhora acredita que esse movimento tem causado no aumento do número de povos indígenas nas cidades?

 

Presidente Eliene Xunakalo: Eu vejo, de certa forma, como um fator negativo o fato de haver muitos indígenas vivendo nas cidades. É preciso entender as razões que levam essas pessoas para o contexto urbano. Aqui na Fepoimt, por exemplo, observamos indígenas que estão na cidade de forma transitória, seja por questões de saúde ou para estudar. Também há indígenas que já fixaram residência de forma permanente.

Portanto, é essencial analisar se esses 10 mil indígenas mencionados estão residindo definitivamente na cidade ou se estão em situação transitória. Muitos parentes têm um modo de vida fluido: às vezes estão na cidade e retornam à aldeia, ou vivem na aldeia e eventualmente voltam para a cidade. Há também casos em que se criam novas aldeias ou surgem outras dinâmicas. Além disso, existem questões culturais que influenciam esses movimentos, o que torna importante saber quem são essas pessoas, a qual povo pertencem e qual é a situação delas no contexto urbano.

Precisamos compreender melhor as causas desse movimento para identificar se está relacionado à ausência de território ou se esses parentes vêm de outros estados para Mato Grosso. O conceito de território, para os povos indígenas, vai além de limites geográficos. Para nós, território é também pertencimento e conexão cultural, e não apenas propriedade ou delimitação de terra. Essa análise mais aprofundada é fundamental para entender o impacto e as dificuldades enfrentadas por esses 10 mil indígenas.

No entanto, uma grande dificuldade para realizar essas análises é a falta de dados confiáveis. Mato Grosso é um estado onde é muito difícil encontrar informações específicas sobre questões indígenas. Por exemplo, dados sobre violência contra indígenas são praticamente inexistentes ou dispersos. Não há um órgão específico para consolidar e levantar essas informações.

Na Fepoimt, estamos constantemente cruzando dados de diferentes fontes, como a Funai ou órgãos de saúde, mas essas fontes nem sempre são confiáveis ou completas. Aprendemos, com a estrutura não indígena, que para reivindicar direitos ou implementar políticas públicas, é essencial ter dados. Sabemos onde estão os problemas, entendemos as especificidades e, muitas vezes, até temos noção das soluções. Contudo, sem dados concretos e consistentes, a formulação de políticas públicas se torna inviável, pois esses dados são uma exigência para embasar qualquer demanda. Infelizmente, essa é uma grande lacuna que ainda precisamos superar aqui em Mato Grosso.

 

RDM MT Municípios: Presidente, diante da mudança de alguns povos indígenas para áreas urbanas, esses povos continuam a receber o mesmo cuidado e assistência que os que permanecem em suas aldeias? Como é feito esse trabalho pela Funai?

Presidente Eliane Xunakalo: Acredito que, quando o indígena está na cidade, ele enfrenta situações específicas que precisam ser observadas. Notamos que, muitas vezes, eles perdem o acompanhamento da Funai, já que esse órgão costuma atender apenas indígenas aldeados, ou seja, aqueles que estão no território tradicional. No entanto, o fato de estar na cidade não faz com que a pessoa deixe de ser indígena. Pelo contrário, ela mantém vínculos com sua comunidade e sua cultura.

Mesmo na cidade, o indígena precisa utilizar os serviços básicos, como qualquer outra pessoa. Por exemplo, para acessar o sistema de saúde, é necessário comprovar residência, obter um cartão do SUS e enfrentar as mesmas burocracias que um não indígena. Entretanto, as dificuldades enfrentadas podem ser ainda maiores. Em alguns casos, há barreiras linguísticas, especialmente para aqueles que não dominam o português.

Em Cuiabá, há certa tranquilidade em relação ao racismo, mas a realidade no interior do estado é bem diferente. Regiões como Sinop e áreas ao redor enfrentam altos índices de racismo. Há relatos de preconceito que dificultam o acesso ao emprego e até à educação. Além disso, existem hotéis que recusam hospedar indígenas e estabelecimentos que não os atendem. Indígenas que migram para a cidade precisam lidar com essas dificuldades, que são amplificadas em relação àqueles que vivem nas aldeias. A vida na aldeia é muito diferente da vida urbana, não apenas culturalmente, mas também em termos financeiros. Muitas vezes, os que vêm para a cidade o fazem de forma temporária, para resolver questões específicas, e retornam à aldeia. Por isso, não convivem diariamente com o preconceito e a discriminação que os indígenas residentes permanentes enfrentam.

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Esse contraste entre os modos de vida na cidade e na aldeia faz com que as dificuldades enfrentadas pelos indígenas em contexto urbano sejam ainda mais complexas e multifacetadas.

 

RDM MT Municípios: Presidente, considerando o número de povos indígenas que se deslocam para áreas urbanas, muitos o fazem por motivos como a busca por educação. Como a federação tem acompanhado e apoiado essa mudança?

 

Presidente Eliane Xunakalo: Para compreender melhor esses números, é essencial entender em que contexto os indígenas estão inseridos. Há indígenas que se deslocam para a cidade para estudar, outros, em busca de tratamento de saúde. Esse trânsito é intenso, especialmente em cidades-polo como Cuiabá, Tangará da Serra, Sinop e Barra do Garças. Nessas localidades, a presença indígena é mais expressiva, além dos municípios menores próximos a terras indígenas.

Nosso povo tem uma forte característica de circular entre diferentes locais. Por exemplo, em Cuiabá, algumas pessoas afirmam que não há indígenas na cidade, mas não consideram o fluxo constante de pessoas indígenas que chegam todos os dias. Lideranças vêm para buscar direitos e resolver problemas; outros vêm para acessar serviços como o Hospital Júlio Müller, o Pronto-Socorro ou as Casas de Apoio à Saúde Indígena (CASAIs). Além disso, as universidades em Cuiabá também recebem estudantes indígenas, reforçando esse movimento constante. Esse trânsito não ocorre apenas na capital, mas em todo o estado, concentrando-se especialmente nas cidades-polo. Assim, é importante considerar esse fluxo para entender a real presença e a dinâmica da população indígena em Mato Grosso.

 

RDM MT Municípios: Mato Grosso é considerado um dos maiores estados em termos de população indígena, com uma porcentagem significativa vivendo em áreas rurais, especialmente nas aldeias, quando comparado a outros estados como Maranhão e Tocantins. Diante desse número expressivo, quais são as principais necessidades de atendimento para as populações indígenas nas áreas rurais, e como os órgãos públicos poderiam melhorar a assistência a esses povos?

 

Presidente Eliane Xunakalo: Os serviços públicos nas aldeias enfrentam sérios desafios de eficiência. Por exemplo, na área da saúde, existe a ilusão de que somos melhor atendidos por termos um sistema diferenciado. Isso não é verdade. Dispomos apenas de uma saúde primária dentro da aldeia, fornecida pela Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena). No entanto, quando precisamos de atendimento de alta complexidade, somos encaminhados ao SUS, onde enfrentamos as mesmas filas e tempos de espera que a população em geral.

Essa espera, que já é difícil para não indígenas, é ainda mais crítica para nós, indígenas. Muitas vezes, perdemos vidas por falta de atendimento em procedimentos relativamente simples, como uma cirurgia para retirada de pedras na vesícula.

A eficiência dos serviços públicos nas aldeias precisa ser revista, com um olhar especial para áreas como a soberania alimentar e a economia indígena. Nossa economia é diversa e não se aplica a um modelo único. Temos indígenas que vivem do extrativismo, como a coleta de castanha e produção de mel; outros trabalham com turismo; há também agricultores familiares e comunidades de subsistência. Alguns grupos demonstram interesse ou já iniciaram atividades de monocultura.

É crucial que haja investimentos cuidadosos e direcionados. Para que os jovens permaneçam nas aldeias, precisamos de uma saúde de qualidade e de uma educação que permita manter a cultura e o idioma, ao mesmo tempo que ofereça possibilidades de renda dentro da comunidade. Por exemplo, comunidades como a Chiquitano produzem grandes quantidades de banana, mas enfrentam dificuldades para escoar e comercializar sua produção devido à falta de apoio público. O mesmo ocorre com outras culturas, como a melancia. Esses problemas são agravados pela falta de infraestrutura e investimentos.

O turismo também é uma área com enorme potencial, mas que carece de planejamento e investimentos. Temos aldeias em regiões belíssimas, como os Parecis, Xavante, Xingu e Médio Araguaia, com praias e paisagens que chamam atenção naturalmente. Um diagnóstico das cadeias produtivas e o fortalecimento delas são essenciais para o desenvolvimento sustentável dessas comunidades.

Infelizmente, enfrentamos os mesmos entraves da agricultura familiar: burocracia excessiva e dificuldade de acesso às políticas públicas. Embora a internet e a tecnologia tenham chegado a algumas aldeias, ainda não conseguimos acessá-las de maneira plena. Muitas organizações de base e associações são pequenas e, muitas vezes, carecem de pessoas preparadas para lidar com as exigências do mundo não indígena, que requer conhecimento técnico e administrativo.

(Foto: Tchélo Figueiredo)

 

RDM MT Municípios: Presidente, como funciona a educação nas aldeias? Há investimentos por parte do governo em relação à educação dos povos indígenas nessas comunidades?

 

Presidente Eliane Xunakalo: Mato Grosso sempre foi referência em educação. No entanto, para nós, povos indígenas, a educação precisa ser específica, pois, além de aprendermos os conhecimentos do não indígena, como ler, escrever e outras ciências, também devemos aprender sobre nossa cultura, idioma e tradições. Embora esses aprendizados sejam transmitidos em casa, é essencial que sejam incluídos nas escolas. Precisamos de um ensino que nos ensine a escrever em nossas línguas e que respeite nossos calendários culturais, como as festas, rituais e práticas de artesanato. Essa valorização é parte fundamental da educação indígena e deve ser respeitada e fortalecida.

Infelizmente, percebemos que essa especificidade está se perdendo em algumas comunidades. Além disso, muitas aldeias em Mato Grosso enfrentam a falta de infraestrutura educacional. Faltam escolas adequadas e profissionais capacitados, especialmente professores indígenas. Muitos professores enfrentam dificuldades com estruturas precárias. Há escolas que funcionam em salas improvisadas, como no caso do povo Tapirapé, que está há anos aguardando a construção de uma escola adequada. Em outros territórios, como nas aldeias Xavante, as salas são feitas de pau a pique, sem condições básicas para o ensino.

Essa precariedade impacta diretamente o aprendizado e a motivação de professores e alunos. Há escolas com goteiras, estradas de difícil acesso durante o período de chuvas e falta de materiais. Ainda que reconheçamos avanços, como a criação da faculdade intercultural pela Unemat e os programas de inclusão da UFMT, há muito a ser feito. Defendemos que a educação indígena seja específica e diferenciada, pois somos diferentes. Temos idiomas, culturas e visões de mundo que precisam ser protegidos e transmitidos às futuras gerações. É por meio da educação que nossos filhos continuarão a levar adiante nossa essência e nossos saberes.

Acredito que é hora de o governo do estado realizar um concurso específico para professores indígenas, valorizando esses profissionais que têm papel fundamental na preservação de nossa identidade. Fortalecer a educação indígena é um passo essencial para garantir que nossas culturas, tradições e línguas permaneçam vivas.

 

RDM MT Municípios: Presidente, a federação chega a fazer reivindicações ao governo do estado sobre a realização desses concursos específicos que a senhora mencionou?

 

Presidente Eliane Xunakalo: Nós cobramos muito, pois costumamos dizer que o papel da federação, além de cobrar, é construir. A federação está aberta ao diálogo, e sempre defenderemos o diálogo, não só com o governo do estado, mas com todas as esferas possíveis que envolvem questões de direitos e a construção de políticas públicas. Estamos abertos ao diálogo. Não estamos aqui apenas para reclamar, estamos também aqui para contribuir com propostas e ajudar. Mas, quando percebermos que algum direito nosso está sendo ferido, vamos levantar a voz, porque acreditamos que fomos criados, e nossas lideranças estão aqui para isso: para fazer um trabalho político, no bom sentido, não é politicagem.

Precisamos que os gestores — tanto o governo do estado quanto os prefeitos e outros, incluindo o governo federal — entendam que, quando batemos em pontos sensíveis, não é pessoal. Não estamos aqui para criticar por criticar, mas sim para lutar pelos nossos povos que estão no território e, muitas vezes, não sabem o que está acontecendo ou não acompanham o que ocorre na Assembleia. Eles não sabem que as decisões não estão em nossas mãos, mas nas mãos de não indígenas que, muitas vezes, não compreendem como funciona nosso modelo e nossa dinâmica.

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RDM MT Municípios: Presidente, a senhora acredita que seria necessário ter representantes indígenas na política do estado, especialmente como deputados ou em outros cargos? E de que forma isso ajudaria as comunidades indígenas?

 

Presidente Eliane Xunakalo: Eu acho que sim, acho que está na hora de Mato Grosso ter um deputado indígena. Até hoje, não tivemos nenhum deputado indígena. Acredito que está na hora de termos alguém representando, já que conseguimos eleger 12 vereadores no ano passado, sendo uma mulher em Luciara. Acredito que está na hora de ter um deputado indígena, mas não sei se conseguiremos, pois precisamos de amadurecimento também, de entender melhor.

Na política, há muitas promessas, há muito assédio. Então, acredito que está na hora de termos uma Secretaria dos Povos Indígenas aqui no estado, mas com um indígena liderando, um parente liderando. Alguém que conhece a seriedade e entende a causa. Não deve ser apenas para figurar, mas sim uma secretaria com uma pasta, recursos e uma equipe bem assessorada e capacitada. Não queremos que se coloque alguém apenas para depois dizer que o parente é incompetente.

O estado merece ter uma Secretaria de Povos Indígenas, até para conversar conosco. Não somos um estado, somos uma organização civil, e trabalhamos em várias frentes. Então, acho que está na hora de o estado reconhecer seus traços.

Estamos aqui em Cuiabá, olhamos ao redor e vemos pessoas com os nossos traços, e nos perguntamos se são parentes. Nos reconhecemos muito nos costumes daqui. Eu venho da aldeia e, recentemente, uma coisa que achei muito parecida aqui é que, no fim da tarde, todo mundo sai de casa, fica na frente conversando, ou então vai ver o jogo de futebol. Eu vejo isso aqui em Cuiabá. As pessoas, geralmente mais velhas, ficam na frente de casa conversando. Isso é algo natural para nós, que reconhecemos em outras pessoas. Outra coisa que vejo muito aqui é o gosto pelo peixe. Sabemos que cuiabano gosta muito de peixe, e nossa base alimentar é peixe, farinha e pimenta. Então, nos identificamos muito com as coisas daqui, mas isso não é por acaso, pois somos uma base cultural no estado de Mato Grosso. Não quero ser modesta, mas acho que o mato-grossense e o poder público precisam nos olhar e ter orgulho desse sangue que corre em nossas veias.

 

RDM MT Municípios: Presidente, quais são as principais causas das invasões nas terras indígenas e quem são os responsáveis por elas? De que forma o Estado tem atuado para evitar essas invasões em territórios indígenas?

 

Presidente Eliane Xunakalo: Quando falamos em invasão, nos referimos à invasão por parte de não indígenas, que podem entrar para retirar madeira, minerar ou expandir suas terras. Um fazendeiro vai alargando sua divisa, e, de repente, ele está dentro do território indígena. Depois, quando o território não é demarcado, pode ser que se tente pedir a posse por usucapião, diminuindo o espaço destinado aos povos indígenas. Esses povos precisam de espaço para caçar e viver. No caso dos povos isolados, por exemplo, é um grupo sem residência fixa ou aldeia formada; eles estão em constante movimento. Hoje podem estar em um lugar, mas daqui a uma semana, já estarão em outro extremo da sua terra, caçando e vivendo de acordo com sua forma de vida, sem contato com a língua portuguesa nem conosco. É uma realidade totalmente diferente.

A Funai cuida desses povos e, enquanto federação, monitoramos a situação com apoio de técnicas específicas. A área é monitorada para saber quantos indivíduos existem e onde estão. A Força Nacional é fundamental nesse processo, já que é uma região de muito conflito, especialmente em Colniza, que tem muitos problemas políticos. A federação atua como um guarda-chuva, defendendo esses povos e lutando por seus direitos. Portanto, sabemos que existem dois grupos em isolamento no estado de Mato Grosso, espalhados por três biomas: o Pantanal, o Cerrado e a Amazônia.

Quando falamos da economia indígena no Pantanal, por exemplo, é importante considerar a dinâmica própria dessa região. Na época das cheias, os custos aumentam e a dificuldade de acesso é maior. As comunidades ficam mais isoladas, sem energia e com grande dificuldade para acessar assistência à saúde. Muitas vezes, a luta é por um barco, por médicos, ou pela construção de escolas — que até têm salas anexas, mas não são suficientes. Esses povos são muito diferentes dos Parecis, que já têm uma estrutura mais consolidada.

Portanto, é preciso conhecer e entender as especificidades de cada um. No Pantanal, durante os incêndios, todos se preocupam em salvar os animais, mas ninguém se pergunta sobre as pessoas que vivem ali. Estivemos envolvidos na arrecadação de água, alimentos e outros materiais, pois nossos parentes não querem viver de assistencialismo, mas sim produzir e viver com dignidade. Precisamos olhar para o Pantanal, para o Cerrado e também para os impactos do desmatamento, que afetam negativamente a produção, como vemos nas porções verdes do mapa que incluem aldeias, quilombos e
comunidades tradicionais. Quando falamos sobre isso, não estamos contra a produção, mas acreditamos que a ampliação da produção, sem controle do desmatamento, pode prejudicar a todos, incluindo os próprios produtores. Vamos ter rios secando, sangramentos, e uma perda da diversidade.

Acreditamos que a produção pode coexistir com a sustentabilidade. Sabemos que há tecnologias disponíveis que ajudam a evitar o desmatamento excessivo, e estamos cientes de que, assim como existem pessoas más, também existem bons produtores que obedecem às leis. O que queremos é que a produção seja equilibrada, que seja possível conciliar o crescimento com a preservação. O que impede esse equilíbrio é a falta de diálogo. Precisamos conversar, entender as necessidades e as realidades de todos os envolvidos, para que possamos avançar de forma sustentável aqui no estado.

 

RDM MT Municípios: Presidente, para finalizar, quais são as suas expectativas para o ano de 2025 e quais são os projetos da federação para este ano?

 

Presidente Eliane Xunakalo: A minha expectativa é que, este ano, tenhamos muitas vitórias. Que os povos indígenas de Mato Grosso ganhem visibilidade de forma positiva, que haja investimento na educação e na saúde, e que possamos realmente olhar para os povos indígenas. Eu já olho assim, mas espero que a sociedade também passe a olhar e dizer: Poxa, eu tenho um estado onde há povos indígenas, e eu tenho orgulho disso. Sabemos que temos muitos desafios pela frente, e não será em um ano que vamos superá- los, mas é preciso começar. Nossa expectativa é que este ano seja incrível. Temos a COP, e vamos levar as coisas boas e também as que não são tão boas assim.

Mas este ano, vamos realizar pela primeira vez os Jogos Indígenas, em junho. Nossas lideranças estão empolgadas, e nós também estamos, mas também estamos preocupados com os custos. Os jogos serão
realizados na aldeia, em Brasnorte, com a participação de todos. Vamos ter uma reunião agora, e provavelmente haverá jogos regionais. As equipes vencedoras irão para o estadual, que será realizado lá, e as vencedoras do estadual irão para o nacional, organizado pelo IP. Vamos ter futebol, lógico, canoagem, arco e flecha, cabo de guerra, e também amostras de jogos tradicionais. Entre os jogos, teremos a Xavante que corta a tora, o Parecis com o cabeçabol (futebol com a cabeça), e outros jogos que serão amostras, sem disputas, já que nem todos participam. Estamos bastante ansiosos e todos já estão se preparando. A partir de amanhã, começaremos a buscar apoio para isso. Queremos também trazer alguns esportistas para incentivar a garotada.

Além disso, temos a expectativa de realizar a pele aqui em Cuiabá, porque já é uma tradição nossa fazer a pele ali na frente do shopping. Queremos continuar com essa tradição. Mas, assim, não é só discutir, é reunir-nos. Temos muita coisa para fazer este ano.

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