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Quem está ouvindo o eleitor de Santa Catarina?

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A política catarinense vive um momento curioso. Nunca se falou tanto em eleição e, ao mesmo tempo, tão pouco sobre o futuro do Estado. A cada semana surgem novas pesquisas, alianças são costuradas, candidaturas são fortalecidas, adversários trocam críticas e bastidores movimentam os partidos. Mas existe uma pergunta que começa a se impor acima de todas as outras: quem, de fato, está ouvindo o eleitor?

A impressão é que a pré-campanha entrou em uma espécie de circuito fechado. Os partidos conversam entre si. Os pré-candidatos respondem aos adversários. As redes sociais repercutem declarações. Os bastidores discutem chapas, Senado, vice-governadoria, federações e estratégias eleitorais. Enquanto isso, boa parte dos catarinenses continua acordando todos os dias preocupada com temas completamente diferentes.

Quem enfrenta filas na saúde não pergunta quem lidera a última pesquisa. Pergunta quando conseguirá uma consulta ou uma cirurgia. Quem perde horas no trânsito da Grande Florianópolis não está interessado apenas em saber quem criticou ou respondeu melhor. Quer entender qual projeto resolverá a mobilidade da região. O empresário quer saber como reduzir custos logísticos. O produtor rural quer infraestrutura. Os jovens querem oportunidades de emprego e qualificação. As famílias querem segurança, educação de qualidade e um Estado preparado para continuar crescendo.

É justamente aí que parece existir um desencontro entre a política e a sociedade.

Até aqui, a pré-campanha produziu boas discussões sobre estratégia eleitoral. Debatemos pesquisas, analisamos a reorganização da disputa pelo Senado com a entrada de Antídio Lunelli, acompanhamos o confronto entre Jorginho Mello e João Rodrigues sobre a Via Mar, observamos o embate institucional entre o Governo do Estado e o presidente Lula e vimos partidos reorganizando suas alianças. Todos esses assuntos são relevantes. Fazem parte da política.

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Mas eles não podem ocupar todo o espaço.

Porque eleição não existe para definir apenas quem governará. Existe para decidir como um Estado pretende enfrentar seus desafios nos próximos quatro anos.

E é justamente essa segunda parte que ainda aparece muito pouco.

Talvez esteja chegando a hora de os pré-candidatos começarem a apresentar menos diagnósticos sobre os adversários e mais diagnósticos sobre Santa Catarina. O eleitor já sabe quem é governo e quem é oposição. Já conhece as diferenças ideológicas. O que começa a faltar é uma discussão mais profunda sobre projetos.

Qual será a política para enfrentar o envelhecimento da população catarinense?

Como preparar o Estado para os impactos da inteligência artificial sobre o mercado de trabalho?

Qual será a estratégia para ampliar a competitividade da indústria?

Como acelerar as grandes obras de infraestrutura sem comprometer o equilíbrio fiscal?

Que modelo de mobilidade será adotado para a Grande Florianópolis nas próximas décadas?

Como enfrentar a falta de mão de obra qualificada que hoje preocupa praticamente todos os setores da economia?

Essas perguntas ainda aparecem de forma tímida no debate público.

E talvez sejam justamente elas que definirão a qualidade da próxima eleição.

Existe uma tendência natural nas campanhas de concentrar energia na disputa diária. É compreensível. A política também vive de narrativas. Mas campanhas que se resumem a responder o adversário correm um risco: terminam a eleição tendo explicado muito sobre o outro e pouco sobre si mesmas.

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O eleitor pode até acompanhar o confronto. Mas vota, principalmente, quando enxerga um caminho.

Santa Catarina possui uma vantagem importante em relação a muitos estados brasileiros. Apresenta indicadores econômicos positivos, elevada capacidade empreendedora e um ambiente institucional relativamente estável. Justamente por isso, talvez a próxima eleição deva discutir menos como resolver crises e mais como aproveitar oportunidades.

Como transformar crescimento em desenvolvimento?

Como manter competitividade diante de um cenário econômico mundial cada vez mais instável?

Como preparar o Estado para os próximos vinte anos, e não apenas para os próximos quatro?

Essas são discussões que exigem mais do que slogans.

Exigem planejamento.

Exigem visão de longo prazo.

Exigem coragem para apresentar propostas que possam ser comparadas pela sociedade.

 

PONTO DE VISTA

Existe uma frase bastante conhecida na política: quem controla a pauta controla parte da eleição.

Talvez seja hora de inverter essa lógica.

Talvez a pauta deixe de ser determinada apenas pelos partidos e passe a ser construída a partir das perguntas que realmente importam ao cidadão.

Os catarinenses certamente continuarão acompanhando pesquisas, alianças e disputas eleitorais. Faz parte da democracia. Mas dificilmente escolherão o próximo governador apenas por causa delas.

No fim, a decisão será influenciada por uma pergunta muito mais simples.

Quem apresentou o melhor projeto para Santa Catarina?

A campanha ainda está em tempo de responder.

Porque eleições passam.

Os desafios do Estado permanecem.

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