Existe uma pergunta que talvez partidos, marqueteiros e até boa parte dos analistas ainda não estejam fazendo. E se a eleição para o Governo de Santa Catarina, em 2026, não for vencida pelo candidato que conquistar mais eleitores, mas por aquele que conseguir despertar menos rejeição? À primeira vista, parece apenas uma mudança de perspectiva na leitura das pesquisas. Na prática, pode representar uma transformação profunda na forma como campanhas serão conduzidas e como o eleitor interpretará os próximos meses da disputa.
Durante décadas, a política foi analisada quase exclusivamente pela intenção de voto. Quem liderava era tratado como favorito. Quem crescia comemorava. Quem caía mudava a estratégia. Mas o ambiente político mudou. As redes sociais aceleraram a circulação de informações, a polarização reduziu o número de eleitores verdadeiramente indecisos e a opinião pública passou a se formar muito mais rapidamente. Nesse cenário, tornar-se conhecido deixou de ser, necessariamente, uma vantagem. Quanto maior a exposição, maior também a possibilidade de aumentar a rejeição. É justamente por isso que olhar apenas para quem aparece na frente das pesquisas pode contar apenas metade da história.
Os números mais recentes da pré-campanha catarinense ajudam a explicar esse fenômeno. Jorginho Mello mantém uma posição confortável na disputa pelo governo, mas também convive com o desgaste natural de quem administra o Estado. João Rodrigues trabalha para ampliar seu espaço eleitoral e transformar uma disputa hoje desequilibrada em uma eleição efetivamente competitiva. No Senado, a entrada de Antídio Lunelli produziu um efeito ainda mais interessante. Ele alterou o comportamento de praticamente todos os concorrentes, não apenas pelos votos que conquistou, mas porque surgiu com um índice de rejeição extremamente baixo quando comparado a candidatos muito mais conhecidos. Ao mesmo tempo, nomes consolidados como Esperidião Amin, Carlos Bolsonaro e Décio Lima convivem com um desafio comum: quanto maior o conhecimento do eleitor sobre uma candidatura, menor costuma ser seu espaço para crescer sem que aumente também a resistência a ela.
É aqui que a análise política começa a ficar mais interessante do que a simples leitura dos percentuais de intenção de voto. Toda candidatura possui aquilo que os estrategistas chamam de teto eleitoral. Chega um momento em que conquistar novos eleitores passa a ser muito mais difícil porque boa parte da população já formou uma opinião definitiva sobre aquele nome. Em outras palavras, a campanha deixa de trabalhar apenas para convencer novos apoiadores e passa a investir energia para evitar perder aqueles que já possui.
Talvez seja exatamente essa a fase em que Santa Catarina começa a entrar. Quanto mais a eleição se aproxima, menos espaço existe para grandes migrações de votos entre campos políticos opostos. O eleitor tende a consolidar suas posições, e a disputa passa a acontecer nas margens, entre quem ainda não decidiu completamente ou entre aqueles que rejeitam menos determinado candidato do que seus adversários. Isso faz com que rejeição deixe de ser apenas um dado complementar da pesquisa e passe a ocupar posição central na estratégia das campanhas.
Essa mudança deveria provocar uma reflexão dentro dos próprios partidos. Será que as pesquisas continuam sendo analisadas da maneira correta? Em vez de perguntar apenas quem lidera, talvez fosse mais útil responder outras questões: quem ainda possui espaço para crescer? Quem já se aproxima do seu limite eleitoral? Quem consegue dialogar com eleitores fora do seu núcleo mais fiel? Quem desperta menor resistência entre aqueles que ainda estão abertos a mudar de opinião? São perguntas menos chamativas do que os rankings divulgados nas manchetes, mas muito mais importantes para compreender o comportamento do eleitor ao longo da campanha.
Também é preciso fazer uma ressalva importante. Baixa rejeição, por si só, não elege ninguém. Em muitos casos, ela é consequência de um nível ainda reduzido de conhecimento por parte do eleitor. À medida que uma candidatura cresce e ganha visibilidade, é natural que sua rejeição também aumente. O desafio das campanhas modernas é justamente administrar esse equilíbrio: crescer sem produzir desgaste na mesma velocidade. É uma tarefa cada vez mais difícil em um ambiente de comunicação instantânea, onde uma declaração, uma decisão administrativa ou um episódio mal conduzido pode alterar a percepção pública em poucas horas.
PONTO DE VISTA
Talvez a principal mudança da política contemporânea seja esta: campanhas já não vivem apenas da capacidade de conquistar novos eleitores. Vivem, cada vez mais, da capacidade de não perder aqueles que ainda estão dispostos a ouvir, comparar e decidir. Em um ambiente altamente polarizado, rejeição passou a ser um ativo eleitoral tão relevante quanto aprovação e, em determinadas circunstâncias, pode até se tornar mais decisiva.
Se essa tendência se confirmar, Santa Catarina poderá viver uma eleição diferente daquelas que marcaram as últimas décadas. Em vez de vencer quem conseguir os discursos mais inflamados ou as maiores demonstrações de força, poderá levar vantagem quem atravessar a campanha cometendo menos erros, produzindo menos rejeição e preservando maior capacidade de diálogo com o eleitor moderado.
Talvez seja cedo para afirmar que a eleição de 2026 será decidida pela rejeição. Mas certamente não é cedo para começar a observá-la por esse ângulo. Porque compreender uma eleição não significa apenas saber quem lidera hoje. Significa identificar quem realmente terá condições de chegar mais forte ao dia da votação. E essa resposta, muitas vezes, está menos na aprovação do que na rejeição que cada candidato constrói ao longo do caminho.
























