Casos de desaparecimento com final trágico revelam a rotina de dor e luta enfrentada pelos profissionais da Polícia Civil, que aliam técnica e empatia para devolver respostas às famílias
Com mais de uma década de experiência, o investigador Marcio Krauss e a escrivã Janaína Paula têm em comum o compromisso inabalável com a verdade. Atuando na Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), em Cuiabá, eles enfrentam diariamente os desafios do núcleo de pessoas desaparecidas, um setor que vai além da investigação policial: acolhe famílias, mobiliza redes de apoio e dá respostas a quem sofre com a ausência.
Em uma semana que parecia comum no mês de abril de 2024, três motoristas de aplicativo — Nilson Nogueira, de 42 anos, Márcio Rogério Carneiro, de 34, e Elizeu Rosa Coelho, de 58 — desapareceram enquanto trabalhavam em diferentes regiões de Várzea Grande e Cuiabá. Poucos dias depois, os corpos das vítimas foram localizados, todos em áreas distintas de Várzea Grande, evidenciando a brutalidade e a frieza com que os crimes foram cometidos.
Nilson foi encontrado no distrito de Bom Sucesso. Já Márcio e Elizeu tiveram seus corpos localizados em regiões conhecidas como Chapéu do Sol e Capão do Pequi. As vítimas desapareceram entre os dias 11 e 14 daquele mês, após saírem para cumprir mais um dia de trabalho.
As investigações tiveram início na Delegacia de Homicídios, que recebeu os registros praticamente ao mesmo tempo. Logo nas primeiras diligências, a Polícia Civil identificou indícios de que os casos estavam interligados. Com isso, os investigadores passaram a trabalhar intensamente para reunir provas e identificar os autores.
O investigador da Polícia Civil, Márcio Krauss, com 14 anos de carreira na corporação, foi o responsável pela apreensão dos três suspeitos envolvidos nos assassinatos. Mesmo durante seu momento de folga, no fim da tarde, Krauss manteve a atenção voltada ao caso.

“Após analisar as imagens de monitoramento e os relatos colhidos durante a investigação, passei próximo à UPA e identifiquei três jovens cujas características físicas coincidiam com as dos procurados. Imediatamente realizei a abordagem e confirmei que se tratava dos suspeitos”, relatou o policial, que acompanhou todo o desenrolar da ocorrência.
A ação rápida e precisa do investigador foi fundamental para a detenção dos envolvidos e a continuidade das investigações que, posteriormente, confirmaram a participação dos três jovens nos crimes.
No entanto, a reviravolta veio quando Lucas Ferreira da Silva, de 20 anos, confessou participação nos assassinatos. Ele revelou que cometeu os crimes com o apoio de dois adolescentes, de 15 e 17 anos. Segundo o relato, os três motoristas foram mortos de forma premeditada enquanto exerciam sua profissão.
A atuação coordenada da equipe da Polícia Civil foi decisiva para elucidar os casos em tempo hábil. A rápida resposta dos investigadores não apenas proporcionou alívio às famílias das vítimas, como também impediu que os criminosos continuassem fazendo novas vítimas.
Diante disso, as buscas se concentraram inicialmente no bairro Cristo Rei. A partir do cruzamento de dados e da análise de imagens de monitoramento urbano, as equipes conseguiram identificar suspeitos, que, posteriormente, foram localizados. A investigação levou à descoberta de dois corpos ainda naquela noite e do terceiro no dia seguinte, encerrando um capítulo brutal da criminalidade na região.
O episódio gerou forte comoção social. As vítimas eram trabalhadores, pais de família, que tiveram suas vidas interrompidas de forma trágica. A resposta rápida da Polícia Civil foi essencial para oferecer algum conforto às famílias e restaurar o sentimento de justiça na sociedade.
Ao relembrar o caso, o investigador Márcio Krauss demonstrou o quanto a investigação impactou emocionalmente a equipe envolvida. Para ele, não se tratava apenas de mais um crime a ser solucionado, mas de vidas interrompidas de forma brutal:
“Foi um caso que nos tocou profundamente, pois envolvia três pais de família, três trabalhadores. Não que outros casos não tenham a mesma importância, mas, nesse em especial, tratava-se de homens que estavam lutando para sustentar suas casas. Um deles, inclusive, se chamava Márcio — pai de três filhas, trabalhando duro como motorista de aplicativo”, relembrou.
Outro caso que ganhou grande repercussão foi o assassinato de um professor muito conhecido na capital. Celso Odinir Gomes, de 60 anos, lecionava matemática no Colégio Salesiano Santo Antônio e estava desaparecido desde o dia 3 de maio de 2024. Na data, ele saiu de sua residência no Bairro Dom Aquino, em Cuiabá, com destino a uma fazenda localizada no município de Santo Antônio de Leverger, mas não retornou.

O desaparecimento mobilizou rapidamente a estrutura do núcleo especializado da Polícia Civil. A investigação contou com o uso de técnicas avançadas de entrevista, cruzamento de dados e análise de imagens de câmeras de segurança. A partir dessas informações, os agentes conseguiram identificar os envolvidos no crime e localizar o corpo do professor em uma área de mata de difícil acesso, próxima à Lagoa Trevisan, nos arredores de Santo Antônio de Leverger.
Márcio, responsável pela apuração do caso, também destacou a comoção gerada pela morte do professor e a rapidez com que a equipe atuou para esclarecer o crime:
“O caso do professor também teve grande repercussão. Era uma pessoa muito querida na cidade. Tudo começou com o desaparecimento dele. As investigações foram iniciadas imediatamente e foi possível identificar um maior de idade e três menores envolvidos — uma menina e dois adolescentes.”
Segundo Krauss, o depoimento dos suspeitos foi fundamental para a localização do corpo, já que a região era de difícil acesso e pouco conhecida:
“Utilizando técnicas de entrevista policial, os envolvidos revelaram a localização do corpo. Sem esse depoimento, seria praticamente impossível encontrar o local, devido à dificuldade de acesso. O corpo estava em uma área de mata na direção de Santo Antônio, em uma região remota e de difícil alcance”, conta.
A atuação rápida e precisa das equipes da Polícia Civil foi determinante para esclarecer mais um crime de grande impacto, trazendo respostas à sociedade e conforto à família da vítima.
Esses episódios são apenas dois exemplos de uma rotina marcada por esforço contínuo e sensibilidade. Por trás das estatísticas e dos boletins de ocorrência, há o trabalho detalhado de uma equipe comprometida com a verdade. A investigação de pessoas desaparecidas, por mais silenciosa que pareça, é uma das atividades mais delicadas desempenhadas pela instituição.
Na linha de frente desse trabalho está a escrivã Janaína de Paula. Com 18 anos de atuação na Polícia Civil e 11 anos dedicados exclusivamente ao núcleo de desaparecidos, ela coordena atividades administrativas, acolhe familiares e conduz a elaboração de cartazes, além de organizar os procedimentos de investigação. Janaína é a fundadora do setor e pioneira no estado na condução desse tipo de trabalho.

O núcleo, embora modesto em estrutura, abrange toda a região metropolitana. Janaína destaca que, com o tempo e a experiência, passou a identificar padrões nos relatos familiares e a reconhecer quando um caso exige mais atenção. Sensibilidade, segundo ela, é uma ferramenta imprescindível.
“O delegado responsável é o doutor, e minha função é cuidar da parte administrativa, além de auxiliá-lo por ser a autoridade central estadual em todas as demandas relacionadas a políticas públicas. Trabalhamos constantemente no desenvolvimento dessas políticas e também realizamos o atendimento hospitalar referente a pessoas sem identificação, dando andamento aos inquéritos e procedimentos de investigação de pessoas desaparecidas, conhecidos como IPPDs”, explica.
Além das investigações, o núcleo exerce um papel social essencial. O desaparecimento de uma pessoa, ainda que não configure crime em sua origem, carrega implicações emocionais devastadoras. O impacto causado às famílias é imensurável, e o trabalho da equipe busca minimizar essa dor com respostas rápidas e acolhimento humano.
“O desaparecimento é, antes de tudo, um trabalho social desempenhado pela Polícia Civil. Trata-se de uma atuação social porque, a princípio, o desaparecimento não configura crime. Qualquer pessoa, por vontade própria, pode decidir sair do país, por exemplo, pegar um voo e ir para a China. Não há impedimento legal para isso. No entanto, o que fica para trás é um vazio — a ausência de respostas para os familiares. O papel do núcleo é justamente tentar preencher esse vazio, oferecendo respostas e direcionamentos àqueles que permanecem na angústia da incerteza”, aponta Janaina.
A comunicação também se tornou uma aliada importante. O núcleo utiliza redes sociais como Instagram e Facebook para divulgar cartazes e mobilizar a sociedade. A imprensa tem papel decisivo nesse processo. Muitas pessoas são localizadas nas primeiras 24 horas após a divulgação — uma prova de que a informação ainda é a ferramenta mais poderosa da busca.
Janaína explica que qualquer desaparecimento pode ser registrado de imediato, sem necessidade de aguardar prazos. Essa orientação corrige um equívoco comum e amplia a eficiência das investigações desde os primeiros momentos.
Já o investigador Márcio, com muitos anos de experiência em segurança pública, representa a face operacional dessa rede. Atua em campo, conduz abordagens e aplica técnicas de investigação com excelência. Para ele, a empatia é um princípio essencial da profissão. Embora nunca tenha enfrentado pessoalmente a dor de um familiar desaparecido, compreende a angústia de cada mãe, pai ou irmão que entra na delegacia em busca de notícias.
Diante disso, o trabalho da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa se divide em três frentes: homicídios consumados, tentativas de homicídio e pessoas desaparecidas. Cada núcleo trabalha de forma integrada, garantindo que nenhuma investigação fique sem resposta. O compromisso da equipe é com a excelência, com a verdade e, sobretudo, com o ser humano.
Esse conjunto de ações reforça a importância da Polícia Civil na proteção da sociedade mato-grossense. Por trás das investigações estão profissionais preparados, empenhados e comprometidos com a dignidade da vida. O silêncio que cerca os desaparecimentos é, muitas vezes, o eco da dor. E é justamente esse silêncio que os investigadores tentam romper, oferecendo não apenas respostas, mas esperança.
Em um estado extenso, de fronteiras complexas e desafios diários, o núcleo de desaparecidos da DHPP representa uma trincheira de resistência à invisibilidade. Cada caso solucionado não é apenas um número, mas uma história que se completa. Uma família que volta a respirar. Um ciclo que se fecha.
A luta contra o desaparecimento é contínua. E, enquanto houver ausências, haverá quem lute para transformá-las em reencontros ou, ao menos, em respostas. A Polícia Civil de Mato Grosso, por meio de profissionais como Claudson e Janaína, mostra que é possível aliar técnica, empatia e coragem para enfrentar as sombras e devolver luz às vidas interrompidas.
Em tempos em que a desinformação e a indiferença parecem ganhar espaço, o trabalho silencioso dos investigadores torna-se ainda mais necessário. Porque, no fim das contas, toda pessoa desaparecida é alguém que importa. E toda verdade descoberta é uma vitória coletiva.
Ao comentar sobre o trabalho da instituição, Marcio destacou o empenho da equipe em cada ocorrência, especialmente nos casos de desaparecimento, que exigem sensibilidade, agilidade e atenção redobrada. Segundo ele, o sofrimento das famílias é sempre considerado, independentemente da dimensão do caso.
“A Polícia Civil atua com empenho máximo. Nenhum caso é deixado de lado, independentemente de sua repercussão. Cada investigação é conduzida com dedicação e seriedade. O compromisso com a excelência norteia nosso trabalho. Felizmente, nunca enfrentei pessoalmente o desaparecimento de um familiar, mas compreendo o sofrimento de quem vive essa angústia. Desaparecem idosos, adultos, jovens e crianças. O desespero das famílias é imenso — e é por isso que cada caso recebe atenção especial, com sensibilidade e responsabilidade”, finaliza.

































