A nova pesquisa Neokemp/OCP News acrescenta uma peça importante ao quebra-cabeça da eleição para o Governo de Santa Catarina. Não apenas pelos 58,2% de Jorginho Mello, mas principalmente pelo movimento ocorrido entre João Rodrigues e Gelson Merísio. O voto útil já começou?
Em 10 de setembro, João tinha 24% e Merísio, 15,1%. Agora, João aparece com 16,7% e Merísio, com 18,3%. Nos votos válidos, são 17,4% para João e 19% para Merísio. A diferença, de 1,6 ponto, está dentro da margem de erro de 3,1 pontos. Portanto, numericamente Merísio aparece à frente, mas a pesquisa não permite afirmar uma ultrapassagem estatisticamente conclusiva.
O movimento de Jorginho também chama atenção. Ele passou de 51,2% para 58,2%, enquanto a expectativa de vitória subiu de 63,3% para 71,9%.
A pergunta que surge é: o que aconteceu com os eleitores que estavam com João?
A pesquisa não identifica para onde cada eleitor migrou. Portanto, não é possível afirmar que os 7,3 pontos perdidos por João foram transferidos diretamente para Jorginho ou Merísio. Mas os números permitem levantar uma hipótese que merece ser acompanhada: parte do eleitorado pode estar fazendo uma escolha estratégica à medida que percebe uma concentração maior da disputa.
É aí que 2022 entra novamente na conversa.
Naquele ano, Jorginho terminou o primeiro turno com 38,61% dos votos válidos e Décio Lima com 17,42%. A eleição foi para o segundo turno. Jorginho terminou a disputa com 70,69% e Décio com 29,31%.
O percentual de Décio no primeiro turno de 2022, 17,42%, é muito próximo dos 19% que Merísio registra hoje nos votos válidos da pesquisa. É uma comparação de fotografias eleitorais diferentes, e não significa que Merísio tenha necessariamente o mesmo eleitorado de Décio. Mas o dado ajuda a visualizar uma possibilidade: o espaço ocupado pela esquerda no primeiro turno pode permanecer relativamente próximo de determinado patamar, enquanto a composição do segundo turno depende dos votos que estavam distribuídos entre outras candidaturas.
Isso também aparece quando olhamos para a eleição presidencial.
Em 2022, no primeiro turno em Santa Catarina, Jair Bolsonaro teve 62,21% dos votos válidos e Lula, 29,54%. No segundo turno, Bolsonaro chegou a 69,27% e Lula a 30,73%.
Na pesquisa atual, Flávio Bolsonaro aparece com 61,7% das intenções de voto para presidente em Santa Catarina, enquanto Lula registra 28,9%.
A comparação chama atenção porque os percentuais atuais da disputa presidencial estão muito próximos dos registrados no primeiro turno de 2022.
Isso não significa que o voto para presidente determine o voto para governador. A própria existência de João Rodrigues com 16,7% mostra que uma parcela relevante do eleitorado faz escolhas diferentes conforme o cargo.
Mas os números ajudam a entender onde pode estar acontecendo a principal movimentação desta eleição.
O eleitorado identificado com Lula aparece, nesta pesquisa, em torno de 29%. Merísio está em 18,3%. A diferença mostra que não existe correspondência automática entre os dois votos.
Da mesma forma, os 61,7% de Flávio não se transformam automaticamente nos 58,2% de Jorginho.
É justamente nesse espaço entre uma eleição e outra que pode estar ocorrendo a movimentação.
O eleitor pode manter uma preferência presidencial e, ao mesmo tempo, escolher outro nome para governador. Pode também mudar sua escolha conforme percebe a possibilidade de resultado no primeiro turno.
É por isso que a queda de João merece ser observada com atenção.
Uma hipótese é que parte desse eleitorado esteja se deslocando para Jorginho diante da percepção de que a eleição pode ser resolvida no primeiro turno. Outra é que parte esteja procurando uma alternativa a Jorginho e tenha encontrado em Merísio uma opção competitiva.
Os números atuais não permitem escolher entre essas explicações.
Há, porém, um dado objetivo: em apenas 20 dias, João perdeu 7,3 pontos, Jorginho ganhou 7 pontos e Merísio ganhou 3,2. Ao mesmo tempo, a expectativa de vitória de Jorginho aumentou de 63,3% para 71,9%.
A eleição de 2022 deixou uma experiência concreta: a disputa pelo governo terminou em segundo turno entre Jorginho e Décio, enquanto a eleição presidencial em Santa Catarina apresentava uma diferença muito maior entre os dois principais candidatos já no primeiro turno.
Agora, quatro anos depois, a fotografia é diferente no governo, mas a comparação presidencial mostra percentuais próximos aos de 2022.
E talvez esteja justamente aí a chave para entender esta reta final.
O eleitorado de esquerda parece manter um patamar relativamente reconhecível. A grande incógnita está no restante do eleitorado.
Se parte dele perceber que a eleição pode ser decidida no primeiro turno, o voto pode se concentrar. Se outra parte entender que ainda há espaço para disputar um segundo turno, a fragmentação pode permanecer.
Por isso, mais importante do que a fotografia de quem aparece em segundo é observar o movimento dos votos que estão mudando de lugar.
A queda de João, o crescimento de Jorginho e a aproximação de Merísio mostram que essa movimentação já começou. O que ainda não sabemos é até onde ela vai.
Dados da pesquisa: Neokemp/OCP News, levantamento realizado em 30 de setembro de 2026, com 1.008 eleitores de Santa Catarina, em 168 municípios. Margem de erro de 3,1 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Registro no TSE: SC-05312/2026.



























