Dólar fecha em alta após chegar a R$ 4,21 nesta quinta

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A corrida eleitoral no país e o cenário externo, com a crise na Argentina se acentuando, estão garantindo um dia turbulento no câmbio no Brasil. Depois de disparar pela manhã, chegando ao patamar de R$ 4,21, o dólar perdeu força, reagindo a uma intervenção do Banco Central, mas ainda assim fechou em alta nesta quinta-feira (30).

A moeda norte-americana subiu 0,63%, a R$ 4,1434, voltando a bater o maior patamar desde 21 de janeiro de 2016, quando terminou o dia vendida a R$ 4,1631. Na máxima do dia, chegou a R$ 4,2144. Na mínima, a R$ 4,1195. Veja mais cotações. No ano, o dólar acumula alta de 25% em relação ao real.

Já o dólar turismo era vendido perto de R$ 4,31 nesta quinta, sem considerar o Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF).

Intervenção do BC

A alta do dólar perdeu força no início da tarde, depois que o Banco Central anunciou uma intervenção adicional no câmbio, além das já previstas. O BC fará um leilão para ofertar US$ 1,5 bilhão em contratos de “swaps cambiais” – que funcionam como uma venda de moeda no mercado futuro.

Em comunicado, a autoridade informou que as intervenções visam “prover liquidez e garantir o bom funcionamento do mercado cambial e, portanto, do regime de câmbio flutuante”.

Na quarta-feira, o Banco Central já havia anunciado que faria leilões de venda de dólares com compromisso de recompra nesta sessão, para rolagem dos US$ 2,150 bilhões que vencem no próximo dia 5 de setembro.

Com isso, o BC retira qualquer pressão adicional sobre o câmbio por causa de dúvidas sobre esse vencimento. “Com o leilão de linha, o BC dá uma sinalização de que está de olho no mercado e vai entrar se necessário”, afirmou à Reuters a estrategista de câmbio do Banco Ourinvest Fernanda Consorte.

O Banco Central brasileiro também realiza neste pregão leilão de até 4,3 mil swaps cambiais tradicionais, equivalentes à venda futura de dólares, para concluir a rolagem do vencimento de setembro, no total de US$ 5,255 bilhões de dólares.

Análise

A cotação por aqui segue a trajetória da moeda norte-americana ante divisas de emergentes no exterior e reflete as perspectivas do mercado depois de uma nova rodada de pesquisa de intenção de voto. Também pressiona a cotação da moeda a alta de juros anunciada na Argentina, onde a taxa chegou a 60%.

Em um momento de subida dos juros na Argentina, o BC também informou, em seu comunicado, que sua atuação no mercado cambial é “separada de sua política monetária [definição dos juros para atingir as metas de inflação], não havendo, portanto, relação mecânica entre a política monetária e os choques recentes”. Ou seja, a instituição informou que não vai subir os juros básicos da economia, atualmente na mínima histórica de 6,5% ao ano, exclusivamente por conta da disparada do dólar.

“Sem grande ‘ajuda’ do exterior, e ainda com dúvidas sobre as perspectivas políticas por aqui, o viés para os ativos locais, nesta sessão, é mais negativo”, disse a corretora Guide Investimentos em relatório.

Apesar dos solavancos, o economista-chefe do banco Safra, Carlos Kawall, não vê riscos relevantes de que as crises na Argentina e na Turquia se estendam para o Brasil. “É preciso separar o movimento de moedas emergentes que estão refletindo o quadro de dólar mais forte, que vem desde abril. Isso tem um impacto nas emergentes como um todo”, diz o especialista segundo a Reuters. “Num outro extremo, estão os países com situação complicada com balanço de transações correntes e déficit elevado. É o caso da Argentina que teve uma desvalorização de 50% no peso em 2018”, acrescenta.

A moeda argentina amarga o pior desempenho global entre as principais divisas globais no acumulado deste ano, seguida pela lira turca, que perde 44%. O real vem logo em seguida, com desvalorização de 21%.

Para Kawall, a dinâmica do mercado brasileiro tem sido ditada nas últimas semanas pelas incertezas eleitorais. Não se trata do mesmo problema de Turquia e Argentina, mas o fator eleitoral pesa no mercado principalmente diante da necessidade de ajustes fiscais. “Eu não vejo o Brasil indo para caminho de Argentina e Turquia”, destaca o especialista, ao destacar também os índices de inflação ainda contidos no Brasil.

Novo patamar e perspectivas

A recente disparada do dólar, que voltou a romper a barreira dos R$ 4 após 2 anos e meio, acontece em meio às incertezas sobre o cenário eleitoral e também ao cenário externo mais turbulento, o que faz aumentar a procura por proteção em dólar.

Investidores têm comprado dólares em resposta a pesquisas que mostram uma fraqueza de candidatos voltados a reformas alinhadas com o mercado. Além disso, o nervosismo gera maior demanda por proteção, o que pressiona o real. Exportadores, empresas com dívidas em dólar e turistas preocupados correm para comprar e ajudam a elevar o preço da moeda americana.

Outro fator que pressiona o câmbio é a perspectiva de elevação das taxas básicas de juros nas economias avançadas como Estados Unidos e União Europeia, o que incentiva a retirada de dólares dos países emergentes.

A visão dos analistas é de que o nervosismo tende a continuar e que o mercado ficará testando novas máximas até achar um novo piso ou até que se tenha uma maior definição da corrida eleitoral.